sábado, 2 de agosto de 2014

Análise da Campanha Dia dos Pais Iguatemi 2014 – Pai Insubstituível


Para variar (só um pouquinho) mais uma campanha publicitária que mexe com algum grupo inserido no contexto do que chamei de “Grupos Hostis” (veja em “Grupos Hostis: Como lidar com Públicos Hostis Para as Marcas”) gera problema para alguma empresa. A vítima da vez é o Shopping Iguatemi de Salvador que veiculou uma campanha para o Dia dos Pais com o conceito “Pai Insubstituível”. O fenômeno em si é muito parecido com o que gerou problemas para o vereador Marcel Moraes em sua campanha que foi acusada de racismo: Problemas de percepção do público.

Nos últimos 10 anos o mundo está sofrendo uma mudança de humor absurdo, uma transformação que está se tornando cada vez mais acelerada e que teve seu início lá no meio do século XX. Tudo está sendo visto como “luta de classes”, como “opressão”, como “preconceito” e não se tem mais a liberdade de brincar nem consigo mesmo. O politicamente correto está bastante aflorado, principalmente nos jovens, que vem aprendendo isso desde pequenininho. Aprendendo não a lidar com as divergências, respeitando-as, mas aprendendo a EXIGIR (mesmo que de forma agressiva) que seu modo de pensar deve ser aceito por todos. No exemplo desta campanha do Dia dos Pais do Iguatemi, não basta não se sentir atraído pela propaganda e achar ruim, é preciso condenar a empresa e rotular quem concorda com a campanha ou que não percebeu de tal forma.

Em um mundo que está com esse grau de conflito interno (que está externando), a comunicação (não somente a publicitária) está ficando cada vez mais complicada pois se torna cada vez mais difícil imaginar o que as pessoas vão perceber o que você está querendo dizer e se o humor dos indivíduos vai aceitar o que é dito. O relativismo também tem complicado MUITO essa situação pois se num determinado “humor” uma mensagem é bem aceita, no outro “humor” a mesma situação é rejeitada.

Nesta campanha de Dia dos Pais do Iguatemi, que usa o conceito de “Pai Insubstituível”, aconteceu exatamente isso. Em abril e maio de 2013 foi veiculada uma campanha de dia das mães com exatamente o mesmo conceito, invertendo apenas o agente (hoje “Pai é Insubstituível”, ontem foi “Mãe Insubstituível”) e a resposta não foi tão hostil.

Por que a resposta não foi tão hostil? Ora! Por que o público masculino não está sendo preparado para reagir agressivamente, enquanto o público feminino (fomentado pelo feminismo radial e neurótico) está o tempo inteiro sendo cutucado em livros, notícias, novelas, etc.

Então, o mundo está menos tolerante, muito mais intolerante. Em um mundo em que tudo é visto como “relações de poder” (Michel Foucault deve estar batendo palmas no caixão), a comunicação e, mais especificamente, a publicidade e propaganda devem tomar muitos cuidadosquando deixar sua campanha muito “aberta”.

Trata-se de uma situação bastante complicada pois o mundo está pedindo uma “abertura” maior na comunicação. Sobre essa abertura que me refiro, o autor Umberto Eco tem um livro excelente que se chama “Obra Aberta” em que ele fala sobre a arte do século XX e a tendência que hoje o mundo artístico tem de deixar o público interferir em sua obra, deixando-a aberta para a percepção do público, pois assim a quantidade de informação que a peça pode passar é muito maior, mas em compensação o autor da obra tem menos controle sobre o que é percebido em sua obra. É um livro interessante para publicitários, pois a publicidade faz muito o uso da arte para realizar sua comunicação.

Hoje em dia se pensa muito em “sua” interpretação dos significados, tomando como verdade a “sua” percepção. Dessa forma, como diz Umberto Eco:

“[...] o leitor do texto sabe que cada frase, cada figura se abre para uma multiformidade de significados que ele deverá descobrir, inclusive conforme seu estado de ânimo, ele escolherá a chave de leitura que julgar exemplar, e usará a obra na significação desejada [...]. Mas neste caso ‘abertura’ não significa absolutamente ‘indefinição’ da comunicação, ‘infinitas’ possibilidades da forma, liberdade da fruição. [...] claro que o intérprete pode orientar-se mais para um sentido do que para o outro [...], mas sempre segundo regras de univocidade necessária e preestabelecidas.” (Obra Aberta pag. 43)

É importante também notar que quanto mais se abre a mensagem que deseja transmitir (entenda, quanto mais possibilidades interpretativas a mensagem possui), ou seja, quanto menos redundância na mensagem, quanto menos clara a mensagem está, quanto mais o autor chamar o público para participar da peça, maior o número de informação que a mensagem contém (e como consequência, maior a quantidade de interpretações que se pode extrair).

Para completar sobre INFORMAÇÃO, trago mais duas passagens do livro tomado como referência:

“Para teoria da informação conta o número de alternativas necessárias para definir o evento sem ambiguidades. [...] A informação não é tanto o que é dito, mas o que pode ser dito. A informação é a medida de uma possibilidade de escolha na seleção de uma mensagem. [...] A mensagem informa mais porque – na fonte – havia maior incerteza quanto à escolha que viria a ser feita. [...] A informação representa a liberdade de escolha que temos ao construir uma mensagem, e portanto deve ser considerada propriedade estatística da nascente das mensagens.” (pag 101)

“Comunicativamente, tenho informação quando: 1) no seio da desordem original recortei e constituí uma ordem como sistema de probabilidades, isto é, um código; 2) no seio deste sistema, sem voltar aquém (antes dele), introduzo – através da elaboração de uma mensagem ambígua em relação às regras do código – elementos de desordem, que, numa tensão dialética, se contrapõem à ordem de fundo (a mensagem põe em crise o código)”. (pág 121)

Hoje, na publicidade, para você chamar a atenção do público e convidá-lo a participar da peça publicitária, é preciso quebrar algumas regras, o que deixa a campanha publicitária um tanto mais próxima do que é arte, convidando a pessoa a pensar mais sobre o que está se querendo dizer e assim aumentar o tempo de atenção que o público dará à mensagem. Sobre essa quebra de regras, “um dos elementos de peculiaridade do discurso estético é fornecido pela quebra da ordem probabilística da linguagem, ordem apta a veicular o significados normais, justamente para aumentar o número de significados possíveis. (pag 121)

Neste convite que se faz ao público para participar da peça, a transmissão de uma sequência de sinais com uma redundância escassa, com alta dose de improbabilidade, ou seja, uma transmissão muito aberta, reque que, na análise, se considerem as atitudes mentais com que o receptor seleciona a mensagem, introduzindo nela, a título de liberdade de escolha, uma probabilidade que de fato não se encontra na mensagem, mas junto de muitas outras.” (pag 131)

“Torna-se, portanto, necessário considerar a relação interativa que se cria, tanto ao nível da percepção quanto ao nível da inteligência, entre os estímulos e o mundo do receptor: uma relação de transação que representa o verdadeiro processo de formação da percepção ou da compreensão intelectual.” (pag 132)

Quanto a percepção, “representa contudo uma relação na qual minhas memórias, minhas convicções inconscientes, a cultura que assimilei (numa palavra, a experiência adquirida) integram-se ao jogo dos estímulos para conferir-lhes, juntamente com uma forma, o valor que eles revestem para mim, considerando os fins que me proponho (pag 133). As percepções, assim, “não constituem relações absolutas ‘daquilo que está fora’, mas representam predições ou probabilidades baseadas em experiências adquiridas” (pag 134).

Depois desse embasamento teórico da linha que foi adotada, vamos para a campanha do Dia dos Pais do Iguatemi, de fato.

Campanha Dia dos Pais Iguatemi – Pai. Insubstituível.

Campanha Dia dos Pais Iguatemi 2014. Pai Insubstituível

Essa é a peça que está em exposição na faixada do shopping Iguatemi. Como pode ver, SEM O VÍDEO, é uma peça bastante aberta e riquíssima de significados. Em temos de imagem, temos o azul (cor associada ao masculino) no plano de fundo, um garoto usando kimono e enfezado porque a mãe está colocando um capacete remetendo à superproteção, sendo que o capacete nada tem a ver com o esporte praticado. A mãe veste azul, que pode remeter a uma mãe que também faz papel de pai. Como texto, o slogan da campanha “Pai. Insubstituível.” e a assinatura “Dia dos Pais Iguatemi”.

A “regra” (o mais comum) para peças de dia dos pais é fazer uso da imagem de um pai com o filho. Eu poderia citar inúmeros exemplos, mas acho desnecessário. De forma ousada, o Iguatemi optou por “quebrar” essa “norma” e colocar a imagem de uma mãe que tem o espírito protetor. Esse espírito protetor faz com que a mãe não entenda o fato do menino querer lutar, daí que entra a figura do pai para gerar esse equilíbrio.

Enfim, o conceito da peça gira em torno de aspectos culturais, desenvolvidos desde quando o mundo é mundo. Vale lembrar que a propaganda usa muito desses aspectos culturais, a propaganda faz uso de estereótipos (não entenda o termo de forma pejorativa) para gerar identificação do público e trazê-lo para a ação desejada. Não há nada de errado nisso, a menos que se queira “quebrar” esses aspectos culturais. E é exatamente aí que entra o problema...

Ao “abrir” a peça, ao quebrar a “regra”, abre-se ramos interpretativos diversos. A redundância não se caracterizou (na verdade, a redundância apenas minimizaria a questão). Optou-se por ganhar mais informação, ganhar mais atenção e interação do público, mas a consequência disso é que o aumento da informação aumenta consequentemente o número de possibilidades interpretativas. Aí entra o que já discuti na postagem sobre “Grupos Hostis”, ou seja, grupos que desejam quebrar aspectos culturais por diversas razões que já falei um pouco no início deste texto e que não interessa aprofundar no momento.

O interessante é que GRANDE PARTE do público entendeu e aderiu à peça, afinal, fez-se uso de aspectos culturais bem enraizados em nossa sociedade brasileira, mas apareceu um pequeno grupo, que quer quebrar esses aspectos, e obviamente olhou as peças com outros olhos.

Para ter ideia que trata-se de um grupo, recorde da campanha do Dia das Mães do ano passado (2013) que tem exatamente o mesmo conceito, trocando apenas os agentes (inclusive fez-se o uso do mesmo grupo de atores – Grupo Porta dos Fundos). O conceito “Mãe. Insubstituível” não teve tanto alarde, e olhe que a peça pode-se até dizer que foi mais “agressiva” em relação ao homem, considerando que ele é todo atrapalhado para cuidar de um filho. A chave interpretativa utilizada para as duas peças foram diferentes, para duas situações iguais.

Mais interessante ainda é que apresentando essa peça HOJE, já existe uma certa aversão destes “Grupos Hostis”, coisa que no ano passado não ocorreu tanto, o que mostra como essa ideologia de quebrar regras está aumentando a cada dia que passa. A percepção também mudou com o tempo, o que é natural, afinal houve mais “experiência adquirida”, fomentada pelo jornalismo e propaganda ideológica.

As campanhas também continham um VT cada, que não muda muita coisa, exceto o fato de reforçar o estereótipo que a campanha de fato quer passar: No dia dos pais, usou-se a mãe atrapalhada com o fato do filho fazer esporte de luta. No dia das mães, usou-se o pai que se atrapalha com o fato de precisar cuidar do filho pequeno. A quebra da “norma” continuou, embora os conceitos de “mãe que faz papel de pai também” e “pai que faz papel de mãe” também tenham sido reduzidos

Dia dos Pais - Iguatemi Salvador


Dia das Mães Iguatemi Salvador 2013



Finalizando

Não estou criticando a campanha do Dia dos Pais do Iguatemi. Acho a proposta “Pai. Insubstituível” boa e o trabalho condiz com o que boa parte do público acredita: “Que existe um papel de pai e que existe um papel de mãe”. Eu entendi a mensagem que o Shopping quis passar e não vou ficar colocando cabelo em ovo como muito por aí estão: “Campanha Machista”, “Campanha Sexista”, “Campanha Homofóbica”, “Campanha Discriminatória”, “Campanha Isso”, “Campanha Aquilo”. Boa parte das pessoas que conheço também entendeu e não viu nada demais, uma pequena parte ficou “em cima do muro”, “cheio de dedos” por causa da patrulha ideológica e uma menor parte ainda aderiu à luta de classes.

Assim como toda comunicação humana, ela não é perfeita (nem nunca será). Estamos trabalhando com milhões de pessoas que tem suas convicções e sempre vai desagradar alguém. Então, se essa campanha não agradou uma parte das pessoas, isso é normal. O que não é normal é querer submeter todo mundo a essa parte de pessoas que não se agradaram, afinal, a campanha não agrediu ninguém.

Meu objetivo com esse post foi passar um pouco da noção de “abertura” de peças, os riscos que se corre ao ser ousado, quais fatores que interferem (aumentam ou diminuem) nestes riscos e dar uma ferramenta a mais para avaliação de peças de comunicação e peças artísticas e mostrar como o mundo à nossa volta está dificultando bastante o trabalho dos profissionais de comunicação, principalmente de publicidade que usa bastante conceitos culturais, estereótipos e arquétipos.





terça-feira, 29 de julho de 2014

Campanhas Eleitorais na TV: O Show Vai começar


No dia 19 de agosto começarão as campanhas eleitorais em rádio em televisão e, como muitos sabem, vai começar o espetáculo de entregas de conteúdo que o público deseja ter e/ou ouvir.

O Marketing Político é importantíssimo, afinal sem ele dificilmente (praticamente impossível) alguém que realmente queira mudar alguma coisa conseguirá chegar ao poder e promover as mudanças necessárias. Portanto, o problema não é o Marketing Político (ou, se preferir, o Marketing Eleitoral) em si, mas como fazem uso dele.

Desde que o poder foi devolvido aos civis (na verdade até antes disso) as campanhas eleitorais estão ficando cada vez mais cinematográficas e o uso das mídias de massa têm decidido as campanhas, principalmente as presidenciais. O candidato passa a ser um produto que deve ser vendido e para obter os votos (sucesso de vendas) é preciso SEDUZIR, PERSUADIR O ELEITOR.

Em Campanhas Eleitorais, que transforma o candidato em produto, valem as mesmas premissas de Campanhas Publicitárias de empresas. Da mesma forma, no Marketing Político valem as mesmas “normas” do Marketing de empresas. Logo, é preciso tratar as Campanhas Eleitorais como são tratadas as Campanhas Publicitárias, tanto quem elabora tais campanhas, quanto, e principalmente, quem as recebe em seus veículos preferidos.

Vale fazer um acréscimo sobre “propaganda enganosa” que é tão combatida e gera revolta no consumidor. Uma empresa precisa entregar o que o consumidor deseja, precisa satisfazer as necessidades do público, para isso faz pesquisas e molda os produtos de acordo com os desejos e necessidades do público. Para vender esse produto, faz uso de ferramentas do marketing (tendo como uma das principais a PROPAGANDA) e quando a promessa não condiz com a entrega o consumidor se sente lesado e recorre a meios cabíveis.

Nas Campanhas Eleitorais o princípio, “a princípio”, deveria valer. As pesquisas para entregar o que o eleitor deseja ocorrem e é interessante que seja assim, é importante saber o que a população deseja e precisa e moldar o produto (candidato) a tais anseios da população. O problema é que o uso mais comum desta ferramenta no Marketing Político visa apenas ganhar a confiança da população e se manter no poder através de mentiras, sendo que o eleitor muitas vezes não tem como recorrer.

Imagine que uma propaganda diz que o consumidor deseja todas as funções possíveis e imagináveis em um celular. A empresa que produz celular diz que seu produto tem tudo isso e realiza a venda. Após adquirir o produto, o consumidor nota que seu aparelho “apenas fala e manda mensagem” e recorre. A empresa responde que as funções estão ali e através de outra propaganda mostra que estão ali mesmo e isso vale como prova irrefutável de que as funções existem em tal aparelho e diz que o consumidor que não percebe, não sabe usar o aparelho devidamente.

Essa estória que acabei de contar é o que mais acontece com grande parte os políticos do Brasil na atualidade, com o diferencial que a população tem poucos recursos para recorrer.

Para ilustrar um pouco como se dá as Campanhas Eleitorais na TV, sugiro dar uma lida nesse artigo elaborado pelo estudante Lucas Corazzini. Possivelmente trata-se de um trabalho de faculdade e tem uma linguagem bastante simples e de fácil entendimento para pessoas que não são da área. O documento se chama “Análise Semiótica da Propaganda Eleitoral” e pode ser lido ou baixado neste link.

Gostaria de ressaltar duas citações que o autor fez no seu trabalho e que mostram muito bem como são as Campanhas Eleitorais na TV (e em outros meios):

1) "De forma neutra, propaganda é definida como forma propositada e sistemática de persuasão que visa influenciar com fins ideológicos, políticos ou comerciais, as emoções, atitudes, opiniões e ações do públicos-alvo através da transmissão controlada de informação parcial (que pode ou não ser factual) através de canais diretos e de mídia." - Richard Alan Nelson, A Chronology and Glossary of Propaganda in the United States, 1996.

2) “Segundo Umberto Eco, a comunicação eficiente fundamenta-se na proposta de arquétipos de gosto que preenche as mais previsíveis expectativas. Entretanto, para não se tornar repetitiva e exaustiva, a publicidade baseia-se no pressuposto de atrair a atenção do espectador, quanto mais violar as normas comunicacionais conhecidas, realizando apelos através de soluções originais.” - Thomas Hohl, Recursos visuais e 4 idéias de uma campanha eleitoral, 2000.

Este artigo ainda traz um pouco de teoria da Publicidade e Propaganda e vale a pena ler em caráter introdutório.

Hollywood Eleitoral

As campanhas eleitorais, então, tornaram-se palco de vendas. O “Estadão” colocou em seu canal no YouTube uma entrevista com o publicitário Eduardo Fischer que fez uma análise da evolução das campanhas eleitorais na TV desde as primeiras eleições diretas para presidente após o Regime Militar, em 1989. Vale a pena assistir este vídeo com pouco mais de 7 minutos.




Para finalizar, gostaria de deixar bastante claro que não sou contra o Marketing Eleitoral assim como não sou contra o Marketing. Muito pelo contrário, sou completamente a favor do uso de ferramentas de Marketing para vender produtos (candidatos) e deixar tudo cada vez mais claro para o consumidor (eleitor) que deverá receber o que deseja. O problema não está no Marketing, mas sim nos vetos, na não liberdade, na censura, na não disputa, no deixar apenas o mais forte fazer o que bem entende, mentindo para o consumidor e não deixando meios para que ele recorra a outras alternativas.








sábado, 26 de julho de 2014

A Desinformação na Internet (e em outros meios de comunicação)


Estamos vivendo em uma época em que a tecnologia nos ajuda muito a driblar os bloqueios e manipulações de informações, mas para que a tecnologia seja eficiente é preciso que as pessoas tenham em mente que a internet não é mais um meio idôneo, que A INTERNET JÁ SE TRANSFORMOU EM MEIO DE MASSA. Não massa no sentido que conhecemos (direção única), mas uma relação de massa muito mais perigosa e eficiente, uma mídia de massa interativa (direção dupla, muito mais complexa).

Infelizmente esse fato ainda causa muita resistência, principalmente dos setores ligados ao Marketing na Internet que ainda estão entusiasmado com as formas de controle e mensuração, com as informações cada vez mais precisas que se consegue coletar do público e fazer uma entrega cada vez mais direcionada.

A tecnologia expandiu muito, alcança cada vez níveis mais elevados, mas com ela as pesquisas e as formas de lidar com a tecnologia vão sendo apuradas também.

Bom, por que fiz essa breve introdução? Porque hoje é possível notar um nível de manipulação e desinformação na internet altíssimo. A facilidade e, principalmente, a quantidade de informação disponível para as pessoas gera uma saturação nos indivíduos que passam a filtrar os resultados e a ter menos atenção (e dedicação na apuração) nas notícias e informações veiculadas.

As Mídias Sociais (que incluem blogs) fazem as pessoas se sentirem mais próximas, mais íntimas, e o nível de confiança se eleva, muitas vezes (diria até que a maioria das vezes) maior do que o nível de confiança em relação a quem está bem próximo de você fisicamente.

Hoje na internet é possível encontrar de tudo, todo tipo de imagem, todo tipo de vídeo, todo tipo de texto (em diversas línguas) o que torna IMPOSSÍVEL a pessoa estar a par de tudo o que está acontecendo, o que gera uma “necessidade” de confiar em pessoas que talvez estejam mais a par de certos temas. Antigamente, também era impossível você ter acesso a um elevado número de informações, mas você tinha menos conhecimento em relação a existência de diversos temas. Hoje o que está acontecendo é que as pessoas estão tendo conhecimento geral sobre quase tudo e conhecimento aprofundado sobre quase nada.

Se você ver circulando informações sobre um determinado assunto que não tem conhecimento tão aprofundado, normalmente você não busca se aprofundar e checar tais informações, recorre a alguém de sua confiança e que possa ter um conhecimento mais amplo sobre o assunto.

No geral, isso não é mau quando a gente precisa de informações gerais e de pouco impacto social. O problema é que informações de alto impacto social estão sendo colocadas no mesmo pacote de informações acadêmicas/profissionais/científicas. O que chamo de “informações de alto impacto social” são informações que gerem alguma resposta em níveis sociais como, por exemplo, aquela pesquisazinha infame do IPEA que colocou o povo brasileiro como “estuprador”. Podemos chamar também de “informações de alto impacto social”, informações ligadas ao “politicamente correto”, à processos eleitorais, à relações exteriores, manifestações, etc...

E porque me preocupa o fato de colocarem essas informações de alto impacto no mesmo pacote das demais informações? Pelo fato de serem informações que despertam ações através de sentimentos, de emoções. Quando a gente ver uma atitude racista, como ocorreu com o Daniel Alves e que gerou a campanha “#SomosTodosMacacos”, nosso sangue ferve e queremos passar adiante para o combate a essa atrocidade. Enfim, somos reativos através das emoções.

E onde é que entra a desinformação nessa história toda?

Desinformação na Internet (e em outros meios de comunicação)

Primeiramente é importante deixar claro que desinformação é algo DIFICÍLIMO de fazer e que tem diferença para o informações falsas e mentirosas (muitas vezes o termo “desinformação” é utilizado para se referir a tais informações, inclusive o título desse post diz respeito mais a isso do que a Desinformação propriamente dita), difere também das notícias manipuladas e da ocultação de informações, embora a desinformação propriamente dita faça uso de todos esses tipos de informações citados. Diria que 90% do que a gente ver por aí e chama de desinformação é na verdade informações falsas ou manipuladas que viralizaram.

Então, deixando esses pontos claros, daqui para frente, usarei o termo “desinformação” para designar tudo isso que falei, ou seja, tanto a desinformação propriamente dita quanto os demais usos.

“Desinformação é você manipular uma informação, modificar a informação (ou até mesmo escondê-la) para criar um efeito no público, quando aplicado à massa, usa-se o termo desinformação, quando aplicado pontualmente é chamado de intoxicação.” (Fonte: vídeo no final do post).

Associando o que foi dito na citação acima aos fatos que hoje estamos cada vez mais saturados de informações que chegam até nós, ao fato de termos cada vez menos tempo para nos aprofundarmos em determinados assuntos e ao fato de depositarmos cada vez mais confiança em nossos “amigos virtuais”, explica-se o porquê de hoje em dia estar tão fácil praticar a desinformação na internet, inclusive “trollando” veículos oficiais da grande mídia, como fez recentemente o blog Não Salvo criando o viral de que a Coréia do Norte ter passado para o seu povo que foi campeã da Copa do Mundo em cima do Brasil.

Este fato do Não Salvo foi uma brincadeira e as consequências não foram muito grande, mas e uma manipulação de informação como fizeram a Rachel Sheherazade quando ela falou que era compreensível o povo se revoltar contra um marginal? Esse caso da Rachel ilustra bem como o “coquetel” manipulação de notícia com uso de fortes emoções pode gerar uma revolta generalizada.

E o que dizer do que está rodando a internet em relação ao conflito “Israel x Hamas”? Este último sim tem muita DESINFORMAÇÃO PROPRIAMENTE DITA com direito a uso de “manipulação de informações”, “informações mentirosas”, “ocultação de informações” e uso da emoção alheia. E o caso da derrubada do avião na Ucrânia? Esse também tentaram...

Gosto muito de uma comparação que o vídeo abaixo faz, não transcrito exatamente como está no vídeo:

“Para demolir um prédio, você não precisa explodir o prédio inteiro, basta você explodir algumas colunas que o sustentam e a gravidade faz o resto. Na desinformação ocorre algo parecido, você manipula a informação, cria um fato ou esconde alguma coisa (ou cria uma história com pontos de verdades e acrescenta inverdades - os pontos de verdade acabam legitimando as inverdades), coloca em pontos chaves (veículos, blogs, REDES SOCIAIS,) e deixa que as pessoas disseminem a informação.”

Isso lembra muito o uso de blogueiros (que acabam sendo referência para muitos), uso de colunistas na grande mídia, uso de jornalistas militantes, correto? Como driblar isso? Infelizmente não há outro método se não o de pesquisar, ponderar as informações, procurar contrapontos e quando não encontrar você mesmo fazê-los, não confiar cegamente em nenhum veículo, e ter em mente que a pessoa que você mais confia pode ter sido intoxicada e estar repassando informações sem querer, na melhor das intenções. Inclusive, não é raro você mesmo ser intoxicado e ser pego por essa rede que é gigantesca (eu mesmo já passei a vergonha de ser pego inúmeras vezes e tenho certeza que você também). Poderia resumir tudo isso em “busca sincera pela verdade e reconhecer quando errar, absorvendo a vergonha de ter falado besteira se retratando”.

Vale ressaltar que em campanhas eleitorais e propagandas políticas o uso da desinformação é bastante comum (infelizmente). Vale ressaltar também que SEMPRE a retratação tem menos impacto do que a viralização da informação errada (no caso do IPEA, a retratação não teve tanto impacto quanto a primeira notícia errada). E nem vou entrar no detalhe que muitas vezes isso é feito para ser dessa forma: você declara um escândalo falso, a informação se espalha de forma muito rápida e depois se retrata com a certeza que o impacto da retratação será inferior.

Para mostrar o quanto o impacto da desinformação, fazendo uso do emocional das pessoas, é difícil de reverter, que tal relembrarmos o caso Marco Feliciano e a chamada “Cura Gay”? Uma pessoa foi demonizada e um tema foi demonizado. Se você analisar friamente, tentando deixar a indignação causada por causa do preconceito atribuído ao tema, verás que muita coisa é inverdade, a começar pelo fato de o projeto que chamaram de “Cura Gay” não ser de autoria do Marco Feliciano e o projeto não falar de "Cura Gay", mas naquele momento tinha uma militância organizada e empenhada em retirá-lo da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

E o massacre que está acontecendo na Venezuela? Poucos tomaram conhecimento devido à OCULTAÇÃO. Tanto que até hoje muita gente não sabe que tem morrido gente na Venezuela por causa de manifestações contra Maduro, tem gente na miséria (passando fome) por causa de medidas tomadas pelo presidente e tem empresários quebrando devido a sanções que o governo de lá tem aplicado por acreditarem que há uma tentativa de golpe.

E o Foro de São Paulo, que é um evento que acontece periodicamente na América Latina e que trata de temas para manter os partidos de esquerda no poder (e os países que ainda não chegaram, como chegar), isso custe o que custar, mesmo que através de fraude? O Foro de São Paulo ficou escondido (e sendo negado pela esquerda) por mais de uma década, vindo realmente à tona na grande mídia no ano passado.

O uso de imagens de outros eventos para ilustrar eventos atuais e causar indignação também é muito comum, afinal, a internet tem um VASTO material e é impossível ter acesso a tudo. Só é você buscar uma imagem bastante antiga e de outro país para ilustrar. Isso aconteceu, inclusive, com o caso Venezuela em que várias imagens de outros anos foram utilizadas para provar o que está acontecendo (isso mostra que a desinformação ocorre de ambos os lados). Inclusive, isso é uma forma de deslegitimar outras fontes de informação... Solta-se um viral e depois desmascara ele para “provar” que as informações estão sendo manipuladas.

Poderia citar aqui INÚMEROS exemplos... É um terreno bastante sombrio e todos estamos vulneráveis, mas o mais importante é termos uma sincera busca pela verdade e não trabalhar cegamente em favor de uma causa/ideologia.

Certamente voltarei a esse tema mais adiante. Para finalizar deixo essa EXCELENTE palestra ministrada por Lourival Filho, diretor cultural do "Instituto Liberal do Nordeste" e diretor presidente do "Expresso Liberdade" cujo título foi “Desafios da Vida Política e Intelectual Brasileira” e que fala muito da desinformação (uma das causas de a vida política e intelectual passar por tantos desafios). Recomendo FORTEMENTE assistir e, como boa parte dos visitantes desse blog são da área de Comunicação e Marketing, tentar fazer relações à sua área específica.