domingo, 7 de dezembro de 2014

Por que Proibir Propagandas Comerciais?


Nas últimas décadas, no Brasil, principalmente do início do século XXI para cá, depois que o PT assumiu o poder federal, a perseguição ao mercado publicitário vem aumentando ano após ano. E isso vem também através das faculdades de comunicação com a desculpa desvairada de “responsabilidade e consciência social”, como se fosse obrigação dos meios de comunicação educar a população. Mas, parece que venceram... De fato, não é de hoje que os meios de comunicação vêm sendo utilizado por pessoas com objetivos “ocultos” como forma de engenharia social, tema que tratarei em diversos posts aqui no blog. Imprensa livre, incluindo as propagandas, implica em maior dificuldade em aplicar os métodos de engenharia social.

Só para deixar claro, não digo que “imprensa livre” ou “propaganda livre” é o mesmo de inserir o que desejar e quando bem desejar, mas essa regulação deve sim ter um limite e o mínimo possível de interferência estatal. Como, aliás, o mercado publicitário já faz muito bem e de forma muito eficiente com o CONAR.

É verdade que a propaganda pode ser uma ferramenta de engenharia social. É verdade que ela quando dominada por um único setor (ou poucos setores), sem concorrência e sem o contraditório, pode ser (e é) um perigo e se transforma em ferramenta de dominação (principalmente se dominada pelo governo). Este é exatamente o argumento dos que lutam com todas as forças contra as propagandas, que são a expressão máxima do capitalismo, das grandes empresas, de quem precisa vender seus produtos.

Numa “cultura anticapitalista” como a que o Brasil está imersa, em que os empresários são vistos como algozes, exploradores máximos dos trabalhadores, e não como instrumentos de desenvolvimento, o ataque ao mercado publicitário é tomado de forma positiva pelos indivíduos que, convictos de estarem fazendo o bem, aderem ao discurso de forma dócil e são facilmente manipulados. Ora, uma forma eficiente de quebrar o mercado é fazer com que as pessoas não consumam. Então, proibir as propagandas comerciais ataca o coração do capitalismo (estão acompanhando o porquê de atacarem tanto as propagandas?).

O fato de proibir as propagandas comerciais não faz extinguir o poder que as propagandas possuem, não desfaz a força que as propagandas têm na construção da cultura e na engenharia social. Proibir propagandas comerciais é só um ataque a um único agente, abrindo caminho para outro ainda mais perigoso que é o governo, ou seja, aquele que tem o poder de proibir. Proibir propagandas comerciais é deixar todo o espaço aberto para aqueles que em si, por definição, possuem poder sobre a população, principalmente numa democracia representativa em que o voto legitima quem está no poder.

Proibindo as propagandas comerciais, o campo publicitário ficará todo à mercê do governo que terá em mãos todos os instrumentos para se “retroalimentar”, realizar a sua engenharia social sem o contraditório e dominar aqueles que ele mesmo diz estar defendendo da dominação e manipulação dos grandes empresários (do capital). Em vez de existir uma “queda de braço” entre mercado e governo deixando que o indivíduo faça o juízo livremente, arranca-se um dos braços, fazendo com que o braço remanescente desça com toda força em cima da população que está embaixo observando e sustentando o governo.

No discurso dominante de hoje em dia em que o indivíduo vê no Estado a concentração de todo o bem, quase um Deus bondoso, a população “sustenta” o governo e este por sua vez protege a população. Em um mundo ideal a gente pode até achar isso bonito, mas no mundo real a gente vê que as consequências de um governo que controla o mercado e os meios de comunicação são assombrosas: Comunismo, Fascismo e Nazismo são apenas três dos diversos monstros que já aterrorizaram o mundo e, por incrível que possa parecer, esses três monstros foram alimentados e apoiados pela população inicialmente. População essa que ao notar a dominação não teve como reagir se não de forma dolorosa, ceifando muitas vidas, diga-se de passagem...


Por que Proibir (ou Restringir) Propagandas Comerciais?

Fora os já citados fatos de destruir o capitalismo e deixar o caminho livre para a força governamental, há ainda outros aspectos mais fortemente ligados à manutenção do poder fazendo uso de meios legítimos para destruir quem legitima.

Tomando como exemplo TV, Revista e Jornal (valendo também para os demais meios), o que sustenta os veículos de comunicação que sobrevivem desses meios é exatamente a propaganda. O que viabiliza os programas de televisão e de informação de massa é exatamente a verba proveniente da venda de espaços publicitários. Se os espaços são livres, além da própria concorrência interna do mercado, há a possibilidade de contrapontos do governo que tem a legitimidade, inclusive se combater os abusos dos primeiros (e vice-versa).

Se você proíbe um lado, no caso as propagandas comerciais, quem vai viabilizar a imprensa, os meios de comunicação? O governo com as propagandas governamentais e de empresas estatais. E quem vai fazer o contraponto? O próprio governo? A população não pode ser, pois ela é o alvo, para quem a informação deve chegar... A própria mídia também não pode ser, pois ela é o instrumento a ser utilizado e caso “morda a mão do único que a alimenta”, esse único deixa-a “morrer de fome” e “sacrifica” logo de uma vez.

“Interessante” que hoje muitos estão reclamando que a mídia está atacando demais o governo e que isso não é papel da imprensa (que “carinhosamente” chamam de PIG) e são incansáveis as “ameaças” de regulação da mídia com o “título bonitinho” de “Democratização dos Meios de Comunicação”.


Resumo Prático da Proibição das Propagandas Comerciais

Sem as verbas das propagandas comerciais os veículos de acesso gratuito (TV aberta, Rádio e até certo ponto a Internet), que por sinal é por onde a grande maioria tem acesso às informações, só poderão sobreviver alimentadas pelas verbas do governo, tornando-se reféns de quem está no poder. Com esse poder exclusivo, o governo poderá ditar o que pode e o que não pode ir a público, penalizando quem não cumprir a “cartilha”. Punição essa que pode ser escancarada e escandalosa, fechando o veículo, ou de forma pior: deixando o veículo “morrer de fome” não inserindo as propagandas governamentais e de estatais, tentando disfarçar para a população que o veículo morreu de forma natural. Isso quando a população não for induzida a apoiar o fechamento de veículos como hoje em dia acontece sistematicamente com a Veja e a Globo, principais alvos dos que querem a “democratização da mídia”.

Exemplo concreto desse poder?

No início deste ano de 2014 o governo ameaçou cortar a verba do SBT caso a Rachel Sheherazade não sofresse sanções por causa de suas declarações. Na mesma emissora, Paulo Martins chegou a perder o espaço, mas voltou ao ar devido a pressão dos espectadores, coisa que não ocorreria se a única fonte de renda da emissora fosse o governo. O ponto de convergência dos dois jornalistas, além de serem da mesma emissora, é que ambos são críticos do atual governo federal. Falei um pouco sobre isso quando tratei sobre "O Caminho do Controle da Mídia e Censura no Brasil".

Outro exemplo está nas restrições a propagandas de cigarros, bebidas alcóolicas e propagandas destinadas ao público infantil. Sobre este eu falarei em outro post, pois o assunto é mais complexo, além de ter uma ideologia por trás disso tudo (assim como existe uma ideologia por trás desses ataques às propagandas comerciais de forma geral).





quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Guerrilha Urbana Eleitoral


Em todas as eleições sempre há a presença de “ações não convencionais”, digamos que “não oficiais”, que têm o objetivo de minar a força do adversário político através da informalidade. Neste ano de 2014, embora não seja novidade no cenário das eleições no Brasil, as ações de Guerrilha Urbana Eleitoral estão bastante fortes, pois o combate oficial está bastante acirrado (equilibrado) e ambos os lados estão querendo ganhar a qualquer custo.

Uso o termo “guerrilha urbana eleitoral” para manter a mesma analogia com estratégias militares que foram feitas no post “Eleição é Guerra”.

Guerrilha é segundo o Dicionário Aurélio:

“Luta armada realizada por meio de pequenos grupos constituídos irregularmente, sem obediência às normas estabelecidas nas convenções internacionais, e que, com extrema mobilidade e grande capacidade de atacar de surpresa, visa ao crescimento progressivo das próprias forças mediante a incorporação de novos combatentes e abertura de novas frentes guerrilheiras até que se possam travar com êxito combates diretos contra as tropas regulares inimigas”.

Guerrilha Urbana é tudo isso adaptado para vias urbanas e, obviamente, Guerrilha Urbana Eleitoral são todas as técnicas adaptadas para o processo eleitoral.

Vale ressaltar que a Guerrilha Urbana Eleitoral é completamente diferente do que nós, profissionais ligados a área de marketing, entendemos como “Marketing de Guerrilha” e muito diferente também do que conhecemos como “Marketing de Emboscada”. O primeiro é bastante conhecido e cada vez mais comum, principalmente nesta era do “Marketing Promocional”. O segundo já não é muito bem visto e, só para dar um exemplo, é o que ocorre bastante durante a Copa do Mundo e que a Fifa tenta impedir.

Cito abaixo dois exemplos um de Marketing de Guerrilha e um de Marketing de Emboscada dentro do processo eleitoral.

MARKETING DE GUERRILHA ELEITORAL (exemplo)

Fazer uma intervenção no centro da cidade colocando pessoas assobiando ou cantando o jingle do candidato. Pessoas que aparentemente não teriam ligação alguma, espalhadas, como se tivessem simplesmente de passagem. Poderia colocar também uma quantidade significativa de pessoas aparentemente sem relação alguma usando camisas diferentes com foto e número do candidato.

Isso passaria a sensação que as pessoas estão aderindo ao discurso do candidato e chamaria a atenção para o público atingido prestar mais atenção ao discurso do candidato através dos debates, das propagandas e dos programas eleitorais.

MARKETING DE EMBOSCADA ELEITORAL (exemplo)

Próximo a (ou até mesmo dentro de) um comício, carreata ou passeata do adversário, colocar pessoas para agirem de forma discreta com material de campanha do candidato. A ação precisa parecer “natural” e não uma intervenção de fato.

Claro que esse tipo de ação, em termos eleitorais, é bastante arriscado para a sua integridade física, pois trata-se de uma provocação. Num cenário eleitoral, principalmente muito disputado e com os ânimos bem acirrados, isso poderá (e provavelmente vai) gerar resposta violenta em cima das pessoas que estiverem armando a emboscada.

NOTE!

Note que tanto o Marketing de Guerrilha Eleitoral quanto o Marketing de Emboscada Eleitoral não fazem uso da intimidação, da depredação, da INTERVENÇÃO DIRETA NO MATERIAL OU MILITÂNCIA do adversário. Poderíamos dizer até que são “intervenções limpas”, talvez subliminares, mas intervenções limpas.

GUERRILHA URBANA ELEITORAL

A guerrilha, por definição, lida com o uso da força (física e psicológica) para TENTAR IMPOR ao próximo a adesão da sua causa. A guerrilha acaba entrando na esfera da exigência, da intimidação, da revolta e do medo. Faz uso de meios fora do campo do diálogo, do racional. O uso da verdade, inclusive, não é necessário, pois a importância maior é que atendam as suas expectativas a qualquer custo. Fazem uso sistemático de “meios de pressão”. Não atoa, UMA DAS ARMAS DA GUERRILHA É EXATAMENTE O TERROR.

“Se você não faz o que eu quero, vou exigir por meio da força até que você abrace a minha causa.”

Pode-se fazer, tomada as devidas proporções, paralelos com os movimentos radicais do mundo (alguns até com certo caráter social): FARC, ERP, Al Qaeda, Estado Islâmico, os separatistas na Ucrânia, os paramilitares chavistas da Venezuela, o MST, o MTST, o Black Blocs, etc...

São inúmeras as armas da Guerrilha Urbana Eleitoral, assim como qualquer guerrilha. Vale qualquer coisa que possa pressionar o seu alvo para fazer o que você quer. Neste cenário, resolvi listar apenas alguns exemplos que estou vendo nesse segundo turno das eleições de 2014.

01) Uso de cartazes e panfletos “amadores”

Sabe aquele tipo de cartaz, em papel ofício impresso em casa? É mais ou menos isso. Só que o conteúdo do material está voltado para espalhar boatos, mentiras, algumas meias verdades, mensagens de intimidação... Pouco importa a veracidade do que é veiculado, pois o objetivo é gerar uma resposta “negativa” em relação ao adversário político, é confundir o eleitor, pô-lo em dúvida, é “queimar” a imagem do adversário ou fazer o eleitor ter receio de manifestar sua opinião seja por vergonha ou por medo.

Esse tipo de material é colocado ou distribuído, normalmente, em pontos de ônibus, postes, universidades, portas de escolas, praças de grande circulação e não há uma identificação clara se o material distribuído é atestado pela equipe do candidato ou não. Ou seja, o emissor normalmente é um anônimo, mas trabalha em favor do candidato.

02) Retirada ou depredação do material de campanha

Recolher material de campanha do adversário político durante as campanhas eleitorais, infelizmente, é muito mais comum do que se pensa. O mesmo vale para a depredação.

Esse tipo de ação tem como objetivo (e consequência) a diminuição ou até mesmo a extinção da visibilidade do adversário nas campanhas de rua. Quando ocorre a depredação, tem-se ainda a sensação de “rejeição”, ou seja, pior do que a ocultação.

No segundo turno, quando se há apenas duas opções para escolher, há ainda a sobreposição de material de campanha (colar adesivo em cima do material de campanha do adversário, por exemplo). Essa atitude pode gerar um efeito contrário de rejeição devido a falta de respeito, mas essa rejeição acaba sendo muito pequena em relação ao dano causa.

03) Intimidação de eleitores do adversário

Essa talvez seja a mais grave de todas as “armas” da Guerrilha Urbana Eleitoral. Ameaçar, intimidar, xingar, agredir fisicamente (sim, isso ocorre e já aconteceu este ano com mais de uma pessoa conhecida minha em Salvador-BA e em 2012 parente meu foi intimidado quando saía de casa para votar e amigo meu sofreu agressão física próximo ao local de votação), depredar propriedade do eleitor (riscar carro, encher o carro de adesivos, quebrar vidro do carro, pichar muro, etc...), tomar material de campanha a força (mandar tirar camisa, rasgar roupa, etc...)... Enfim... Toda forma de intimidação possível e inimaginável.

Essas ações têm como objetivo deixar o eleitor do adversário com medo, apreensivo até sair para votar se este não estiver convicto do seu voto. O eleitor do adversário terá medo de manifestar seu apoio com medo de alguma retaliação, alguma perda de bem ou até agressão física. Essas ações são mais fortes nos dias de votação ou poucos dias antes. Inclusive, o uso de boatos de agressão, de assaltos, brigas de militantes, etc..., não são raros nas redes sociais. Mas, pior é quando isso não é um boato, mas sim um fato.

TERRORISMO ELEITORAL

Nestas eleições de 2014 tem-se falado bastante do “Terrorismo Eleitoral” que um partido político está realizando. Como disse anteriormente, o “Terrorismo” é uma das inúmeras armas da Guerrilha. Antes, neste post, eu estava tratando mais da “Guerrilha Urbana Eleitoral”, ou seja, procurei dar ênfase - não exclusividade - nas ações físicas de rua. Todas as ações descritas anteriormente podem ter pontos que se enquadram no “Terrorismo Eleitoral”, principalmente a última citada.

A definição de “Terrorismo”, tirada da Wikipédia, é a seguinte:

“Terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, terror, e assim obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas, incluindo, antes, o resto da população do território. É utilizado por uma grande gama de instituições como forma de alcançar seus objetivos, como organizações políticas de esquerda e direita, grupos separatistas e até por governos no poder.”

Obviamente, anexando o termo “Eleitoral” as ações são adaptadas para esta finalidade.

A arma “Terrorismo” é utilizada para alcançar o objetivo através da PRESSÃO usando o artifício do medo que é um dos sentimentos mais primitivos do ser humano, que o faz, inclusive, perder a razão. A emoção toma conta e “bloqueia” as ações que possam trazer alguma mudança, visto que a “não ação” é exatamente a continuidade. A pessoa com medo tende a ficar estática.

Eleitoralmente falando, incutindo o medo a pessoa tende a manter a atual situação, mesmo que ela deseje alguma mudança. É exatamente por isso que o PT está atacando através do “medo”, pois o sentimento de mudança da população é bastante forte e o principal mote de campanha de Aécio Neves é “Mudança”. Foi por isso também que em 2002 o PSDB usou o mote “medo” em cima do Lula, embora não tenha sido com tanta veemência e sujeira como está sendo feito este ano.

São inúmeras as formas de disseminar o medo (além das já citadas). Particularmente neste ano de 2014 o medo está sendo disseminado através das propagandas políticas (inclusive começaram bem cedo, antes das campanhas eleitorais), através do celular usando as mensagens de texto SMS e o aplicativo WhatsApp, através de boatos espalhados nas redes sociais, através de telefonemas, através de discursos em comícios e através de militantes usando o “boca-a-boca”.

O ser humano em si tem aversão à perda, tem medo de perder. É inegável que nesses doze anos de governo do PT muitos que não tinham nada, hoje em dia têm alguma coisa (a “validade” dos métodos não vem ao caso agora) e perder para voltar à miséria é de gerar pânico nestas pessoas. Reparem que não estou falando de ataques à honra e à moral do adversário, estou falando de ataques ao psicológico do cidadão, ou seja, à transformação de quem precisa e tem alguma dependência em ESCRAVO. É fazer uso da necessidade alheia para escravização e é exatamente por isso que não dão uma “porta de saída”, um meio da pessoa poder sair de tal situação... É colocar na pessoa grilhões com uma bola de chumbo pesadíssima que a impeça de realizar qualquer movimento de forma independente.

O terrorismo faz uso de pessoas que nada tem a ver com a situação para atingir os inimigos, o terrorismo eleitoral faz uso de pessoas inocentes e com certo grau de dependência (física e/ou psicológica) e ingenuidade para atingir o adversário político. Em ambos os casos, a pressão através do medo bloqueando o poder de ação.

Agora, cabe uma observação... Disse anteriormente que o medo bloqueia a ação, mas ele pode também chamar a pessoa a agir contra o alvo e não contra quem de fato está fazendo o uso do terror. É uma completa inversão dos sentidos.




sábado, 18 de outubro de 2014

A Construção de Um Discurso Político Difamatório


Ante de começar, quero dizer o porquê de eu ter deixado de postar desde agosto...

Eu pretendia fazer uma série sobre “Marketing Político”, mas a mesma foi inviabilizada. O motivo? Simplesmente esse ano está sendo o das CAMPANHAS POLÍTICAS MAIS SUJAS DA HISTÓRIA RECENTE DO BRASIL. O conceito de “Eleição é Guerra”, que tratei em outro post, assumiu o seu mais alto patamar em que praticamente tudo está valendo.

Devido a esse cenário e ao fato de a campanha a ser analisada seria a do PT, partido que na ocasião considerava o mais competente em termos de Marketing Político, (embora, hoje, esteja vendo que o pessoal do PSDB está colocando o do PT no bolso!) e esta campanha está sendo IMUNDA (primeiro turno detonaram a Marina com algumas rajadas em Aécio e este segundo turno está tudo concentrado em Aécio, como era de se esperar), decidi cancelar essa série para não tomar partido (embora minha preferência, desde o início, fosse de fato pelo candidato Aécio Neves e sua coligação por motivos que não vem ao caso).

O Marketing Político não é realizado apenas durante as campanhas eleitorais, ele vem sendo elaborado com bastante antecedência (acaba uma campanha eleitoral, já começa um novo projeto até o próximo processo eleitoral) e eu venho acompanhando a comunicação do PT de forma mais atenciosa há pelo menos três anos. Isso gerou um bom material para análise que, infelizmente, não caberia colocar em prática de modo, digamos, QUASE neutro.

O que me estimulou a voltar para fazer esse post foi o fato de eu realmente ter saturado dessa campanha e em ver tanta gente estarrecida com a formatação dessa Campanha Eleitoral de 2014. O que é feito durante uma campanha eleitoral para derrubar um candidato, fica na campanha e qualquer coisa que seja desmentida de nada valerá depois, pois o resultado já saiu e não há como provar que tal difamação (caso seja mentirosa) de fato tenha contribuído para a derrota do difamado (embora todo mundo saiba que o motivo foi a difamação, é praticamente impossível provar juridicamente).

Outro fator que me fez ter vontade de voltar a escrever foi o fato de eu ter previsto de forma quase que certeira o que aconteceria nas eleições para governador da Bahia, após ver o último programa dos candidatos Paulo Souto do DEM (aparecendo liderando as pesquisas) e Rui Costa do PT (candidato que estava ascendendo cada vez mais).

Após ver os programas a primeira pergunta que fiz foi: “Como é que o Democratas não previu que a campanha do PT iria atacar exatamente esse ponto no último programa eleitoral e não se antecipou (blindou)?”. Daí não foi muito difícil prever que Rui, que estava ascendendo, iria para o segundo turno na frente de Paulo Souto (só não esperava que o impacto seria tão grande a ponto dele ganhar logo no primeiro turno).

Como hoje a situação está bem parecida com o que está para ocorrer com o candidato Aécio Neves (sim, meu candidato), excetuando o fato de que é ele que vem em processo de ascensão, embora esteja, hoje, à frente nas pesquisas, resolvi mostrar para vocês um pouco dessa minha percepção para chegar à conclusão em relação às eleições para governador da Bahia. Vale destacar que falo de mesma situação e NÃO DO MESMO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO DISCURSO.

Construindo um Discurso Político Difamatório

Como disse na breve introdução, o Marketing Político não acontece apenas durante o processo eleitoral. A campanha eleitoral é o final de todo o trabalho realizado antecipadamente. Então é muito comum plantar notícias sobre um determinado candidato com bastante antecedência para usá-la como validadora (desenterrando-a) durante a campanha eleitoral (ou em até mais de uma campanha eleitoral), assim como arquivar as notícias verdadeiras sobre escândalos que o oponente venha a cometer, fazendo uma espécie de “clipping”. Como esse é um trabalho constante e que continua ocorrendo em todas as etapas que listarei não a considero como uma etapa específica.

Eu identifico NO MÍNIMO QUATRO ETAPAS BÁSICAS, sendo que dentro dessas etapas básicas podem ter (e normalmente têm) outras pequenas etapas. As 4 etapas básicas são:

01) Identificar um grupo sensível (ou mais) para ser acionado na hora de atacar
02) Procurar entre os discursos (propagandas, comícios ou debates) algo que possa ser interpretado de uma maneira que afete um desses grupos, fazendo um arranjo discursivo
03) Plantar Notícias e estimular meios de divulgação, promover ataques através de agentes e manipular notícias antigas ou de difícil averiguação
04) Lançar no último programa e/ou no último debate a "bomba", quando o oponente não tem mais chance de se defender a altura.

Etapa 1: Identificar um grupo sensível (ou mais) para ser acionado na hora de atacar

Atualmente existem 3 grupos que estão bem sensibilizados e que são bem relevantes para campanhas eleitorais: a) Mulheres, devido ao movimento feminista; b) Negros, devido ao movimento negro; c) LGBTs, devido aos movimentos gays. Lembra que falei que o processo de “Marketing Político” começa muito antes? Os partidos que estão mais imersos nos movimentos sociais associados a esses grupos são exatamente o PT e seus aliados, sendo assim muito fácil acioná-los.

O trabalho em cima desses grupos é feito durante muito tempo, tanto de “implantação de comandos” para reagirem quanto de fomentação da insatisfação, deixando-os sempre insatisfeitos, sempre promovendo a “luta de classes” e se colocando como um dos poucos (se não o único) que de fato olha para esses grupos.

No caso que estou vendo do Aécio Neves, o grupo selecionado foi o de MULHERES (e se for negra e/ou homossexual, melhor ainda!). Esse grupo (o de mulheres) ainda servirá para tentar frear o candidato Aécio Neves nas respostas em relação a Dilma, fazendo-o pensar mais vezes do que pensaria caso o adversário fosse do sexo masculino.

Etapa 2: Procurar entre os discursos (propagandas, comícios, debates, etc...) algo que possa ser interpretado de uma maneira que afete um desses grupos, fazendo um arranjo discursivo.

Identificado(s) o(s) grupo(s) e sabendo como reage(m) a determinados comandos (discursos), basta aguardar a oportunidade de “pinçar” algo que o oponente disse e que possa ser interpretado (mesmo que de forma forçada) como um ataque aos valores de tais grupos. Para fazer isso, basta colocar uma pessoa (ou uma equipe) especializada em “métodos de interpretação” (pode ser semioticistas ou analistas de discursos, por exemplo) com objetivo direcionado de “captar possibilidades interpretativas”. Hoje em dia não é muito difícil encontrar (deturpar) discursos para que pareçam “racistas”, “machistas” ou “homofóbicos”.

Esse discurso pode, inclusive, ser estimulado, trazido à roda através de temas que tenham, de modo secundário, um dos grupos selecionados.

Dilma, por exemplo, e apenas um exemplo, quando perguntou para Aécio (em um dos debates) sobre SEGURANÇA, inseriu “SEGURANÇA DA MULHER, deixando claro que queria que fosse tratado desse assunto. Falando de MULHER, seria muito mais fácil conseguir pinçar um discurso que parecesse “machista”, afinal, estaria se falando de violência contra a mulher que em praticamente todos os casos é realizada por homens. Outro fator importante desse estímulo é que prepara o público para o tema, deixando-o mais sensível.

Bom... Para este caso, existe uma notícia de 2009 em que Aécio Neves é acusado de bater em sua namorada (atual esposa e mãe dos filhos gêmeos dele) publicamente numa festa, fato que já foi desmentido e esclarecido (aqui tem outra fonte "Informação falsa: Aécio Neves agrediu namorada Letícia Weber em 2009"). Então, trazer o tema “Violência Contra a Mulher” pode trazer à baila essa notícia (próxima etapa).

Etapa 3: Plantar Notícias, estimular meios de divulgação, promover ataques através de agentes e manipular notícias antigas ou de difícil averiguação.

Essa é exatamente a etapa em que todo o trabalho sujo é colocado em prática. Tendo o oponente fisgado a isca, é partir para as manipulações e deturpações.

No Debate da Band para o Segundo Turno (14/10/2014), segundo os petistas, Aécio Neves foi machista ao se dirigir a Dilma Rousseff da forma como se dirigiu (se foi uma reação ou não para esse processo é irrelevante, mas o fato é que provocam o tempo inteiro para alcançar o objetivo) e quando ele usou os termos “Trabalhador” e “Dona de Casa” (detalhe que Dilma TAMBÉM USA esses termos para se referir de forma similar).

Colocou-se então uma nota no site oficial do PT denominada “Aécio dá show de machismo no debate da Band”, usando o termo “Machismo” que faz ativar o movimento feminista e toca muitas mulheres que recebem uma carga midiática pesada de tudo que ELES (do partido e movimento feminista) acreditam ser “machismo”.

O primeiro “estímulo” fora do site partiu das mídias sociais, local onde o engajamento é bastante significativo e tem um bom poder de viralização. As imagens abaixo foram tiradas da Fanpage Oficial do Partido.


Depois precisam vir outros reforços como este para manter a unidade e manter o tema sempre vivo.


No Debate do SBT (16/10/2014) o candidato Aécio Neves (acertadamente, ao meu ver) também não poupou ataques verbais em resposta às provocações da candidata Dilma Rousseff. Aécio tratou a atual presidente de igual para igual (com igualdade e não considerando a mulher como “sexo frágil”, que por sinal as feministas odeiam ser chamadas disto, e em consonância com a imagem de "forte" que a atual presidente adota), respondendo os ataques à altura, aumentando a temperatura em outras ocasiões. O clima do debate foi bastante tenso e carregado (chegando até a candidata Dilma passar mal durante uma entrevista após o debate).

Essa atitude de Aécio (repito, acertada, mesmo com as consequências que podem/poderiam gerar) abriu a porta para dizer que o candidato tucano não respeita mulheres e é agressivo com mulheres (não somente com Dilma, mas com mulheres em geral). Isso pode trazer à tona a notícia de 2009 em que o acusaram de ter agredido a namorada na festa (link na Etapa 2) e implantar o conceito Aécio machista que é agressivo com mulheres. Obviamente, não iriam deixar isso em branco e Lula, em um comício em Manaus disse que Aécio foi Ignorante COM UMA MULHER. Reparem que ele usou a expressão “uma mulher” e não com a candidata Dilma Rousseff. Por que isso? Ora! Para dar andamento na fixação da imagem que pretendem dar a Aécio Neves (a imagem de machista) e como Dilma Rousseff irá atacar o candidato, cada vez que ele ataca-la o PT irá tentar dizer que o candidato não respeita o fato da presidente da república ser mulher, dando a entender que ele só a trata dessa forma porque trata-se de uma mulher e que por isso ele é um "troglodita machista".

Trabalhando com essa declaração de Lula com a notícia de 2009, podem agora trazer vários reforços. Um deles foi associar o artista Dado Dolabella que já foi acusado por agredir namoradas (por que não trazem o Netinho de Paula, cantor e do partido PCdoB, aliado do PT?) e diversos escândalos de “molecagem”.


A militância pode ser acionada de forma ativa ou passiva. Ativa é quando essa militância está sendo gerenciada pelo partido, passiva é quando essa militância (ou militante) é pega pelos estímulos da militância ativa, da mídia ou do próprio partido.

A manipulação da postagem abaixo não sabe-se ao certo se foi “ativa” ou “passiva”, mas isso pouco importa para o resultado final (aliás, conseguir esse grau de engajamento de militantes passivos é o que deseja todo candidato). O importante, agora, é ver como a notícia foi manipulada!

(Sem link, pois trata-se de um perfil pessoal)

Repare que o texto ao lado é EXATAMENTE o mesmo da postagem de 2009 (arquivada), mas a imagem da mulher agredida não condiz com a notícia, ela foi usada apenas para mostrar um rosto conhecido na mídia e sem relação com o caso listado. Mas isso pouco importa, pois a notícia da imagem é muito antiga (embora tenha voltado à tona pois o agressor neste caso é um ator e este está sendo acusado de ter agredido a mulher recentemente). Essa imagem da mulher agredida, segundo fonte, é de 2006, mas segundo acusação o ator agrediu OUTRA mulher no início deste ano (“Ex-namorada de Kadu Moliterno relata que foi agredida pelo ator após descobrir traição e presta queixa”).

Repararam a “confusão”?

Aécio foi acusado de ter agredido uma mulher em 2009, trazem uma mulher que foi agredida por outra pessoa em 2006 e que não tem relação com o fato recente que trouxe a notícia. Resumindo, a pessoa para verificar essa notícia vai rodar bastante.

Essa outra parte de uma militância organizada, a UJS, que e fortemente ligada ao Partido dos Trabalhadores. Repare que eles trazem uma capa de jornal antigo e a verificação é praticamente inacessível.


Etapa 4: Lançar no último programa e/ou no último debate a "bomba", quando o oponente não tem mais chance de se defender a altura.

Obviamente aqui, nesta etapa, trata-se de especulação. Trata-se de UMA POSSIBILIDADE. Como “Eleição é Guerra”, é um jogo de xadrez, é preciso ver a movimentação do adversário. O Marketing do PT pode optar por antecipar ou abortar e colocar outro tema que ele julgue mais “grave” (por exemplo, está também em evidência o caso do Helicóptero com quase meia tonelada de pasta base de cocaína e que também já foi desmentido e esclarecido). O Marketing do PSDB pode resolver esclarecer isso antecipadamente e neutralizar a ação do PT. Enfim, só a movimentação poderá dizer. Há também outras possibilidades de desfecho, mas aqui irei me ater a notícia inicial (a de 2009, que Aécio foi acusado de ter agredido a namorada).

Com todo esse terreno preparado, essa bomba pode ser lançada no último programa eleitoral de TV e Rádio ou no último debate. Como este ano o último debate será um dia antes do último programa eleitoral, lançando o tema no último debate ainda haverá tempo de tentar desfazer (embora o impacto da resposta não será o mesmo). Então...

No dia 24/10, no último programa, pode ser lançado para a massa a notícia de que Aécio agrediu namorada em festa que em si é grave. O candidato não terá outro programa para desfazer e o trabalho em mídias sociais não terá tempo suficiente para viralizar a defesa à altura. O candidato difamado terá que contar com a “sorte” de os eleitores não acreditar na denúncia ou a denúncia não ter um peso tão grande (difícil, pois é um tema de comoção).

Conclusão

A ideia deste post foi mostrar o possível caminho para difamar o adversário político. Mostrar o caminho para a construção de um discurso político difamatório e não a resolução do problema ou alternativas para blindar esse discurso. Até porque, é preciso ter muitas informações (pesquisas e o plano estratégico geral) para ver qual linha adotar. Pode ser que, para este caso, a equipe de Aécio Neves tenha material para difamar a Dilma e a altura de tornar esse fato pequeno. Pode ser também que a equipe do PT tenha material mais grave para inserir no último programa eleitoral e que seja melhor antecipar isso para um debate.

Gostaria de deixar claro também que uso o termo “acusado” para me referi a “denunciado” e que não necessariamente foi condenado.

Importante deixar claro também que considero o “Discurso” aqui o da campanha para “colar” essa imagem e não uma “análise do discurso de uma frase, parágrafo ou texto”.

Por fim, gostaria de deixar claro também que o fato de eu estar trazendo como exemplo a campanha do PT não significa que a do Aécio Neves esteja isento de sujeiras.

[ATUALIZAÇÃO 17h30]

Uma hora depois de publicar esse post tive acesso ao vídeo do Comercial do PT que começou a ir ao ar hoje na TV e Rádio que fala exatamente o que escrevi. Olhem como estão construindo em Aécio a imagem de que AGRIDE MULHERES! Não vai demorar para tocarem no assunto de 2009!

(Ps: Se o vídeo sair do ar, visto que a equipe de Aécio Neves entrou com ação no TSE para retirá-lo do ar e entrou com outra ação processando a candidata Dilma Rousseff contra difamação, me avisem para eu subir em outra plataforma)




sábado, 2 de agosto de 2014

Análise da Campanha Dia dos Pais Iguatemi 2014 – Pai Insubstituível


Para variar (só um pouquinho) mais uma campanha publicitária que mexe com algum grupo inserido no contexto do que chamei de “Grupos Hostis” (veja em “Grupos Hostis: Como lidar com Públicos Hostis Para as Marcas”) gera problema para alguma empresa. A vítima da vez é o Shopping Iguatemi de Salvador que veiculou uma campanha para o Dia dos Pais com o conceito “Pai Insubstituível”. O fenômeno em si é muito parecido com o que gerou problemas para o vereador Marcel Moraes em sua campanha que foi acusada de racismo: Problemas de percepção do público.

Nos últimos 10 anos o mundo está sofrendo uma mudança de humor absurdo, uma transformação que está se tornando cada vez mais acelerada e que teve seu início lá no meio do século XX. Tudo está sendo visto como “luta de classes”, como “opressão”, como “preconceito” e não se tem mais a liberdade de brincar nem consigo mesmo. O politicamente correto está bastante aflorado, principalmente nos jovens, que vem aprendendo isso desde pequenininho. Aprendendo não a lidar com as divergências, respeitando-as, mas aprendendo a EXIGIR (mesmo que de forma agressiva) que seu modo de pensar deve ser aceito por todos. No exemplo desta campanha do Dia dos Pais do Iguatemi, não basta não se sentir atraído pela propaganda e achar ruim, é preciso condenar a empresa e rotular quem concorda com a campanha ou que não percebeu de tal forma.

Em um mundo que está com esse grau de conflito interno (que está externando), a comunicação (não somente a publicitária) está ficando cada vez mais complicada pois se torna cada vez mais difícil imaginar o que as pessoas vão perceber o que você está querendo dizer e se o humor dos indivíduos vai aceitar o que é dito. O relativismo também tem complicado MUITO essa situação pois se num determinado “humor” uma mensagem é bem aceita, no outro “humor” a mesma situação é rejeitada.

Nesta campanha de Dia dos Pais do Iguatemi, que usa o conceito de “Pai Insubstituível”, aconteceu exatamente isso. Em abril e maio de 2013 foi veiculada uma campanha de dia das mães com exatamente o mesmo conceito, invertendo apenas o agente (hoje “Pai é Insubstituível”, ontem foi “Mãe Insubstituível”) e a resposta não foi tão hostil.

Por que a resposta não foi tão hostil? Ora! Por que o público masculino não está sendo preparado para reagir agressivamente, enquanto o público feminino (fomentado pelo feminismo radial e neurótico) está o tempo inteiro sendo cutucado em livros, notícias, novelas, etc.

Então, o mundo está menos tolerante, muito mais intolerante. Em um mundo em que tudo é visto como “relações de poder” (Michel Foucault deve estar batendo palmas no caixão), a comunicação e, mais especificamente, a publicidade e propaganda devem tomar muitos cuidadosquando deixar sua campanha muito “aberta”.

Trata-se de uma situação bastante complicada pois o mundo está pedindo uma “abertura” maior na comunicação. Sobre essa abertura que me refiro, o autor Umberto Eco tem um livro excelente que se chama “Obra Aberta” em que ele fala sobre a arte do século XX e a tendência que hoje o mundo artístico tem de deixar o público interferir em sua obra, deixando-a aberta para a percepção do público, pois assim a quantidade de informação que a peça pode passar é muito maior, mas em compensação o autor da obra tem menos controle sobre o que é percebido em sua obra. É um livro interessante para publicitários, pois a publicidade faz muito o uso da arte para realizar sua comunicação.

Hoje em dia se pensa muito em “sua” interpretação dos significados, tomando como verdade a “sua” percepção. Dessa forma, como diz Umberto Eco:

“[...] o leitor do texto sabe que cada frase, cada figura se abre para uma multiformidade de significados que ele deverá descobrir, inclusive conforme seu estado de ânimo, ele escolherá a chave de leitura que julgar exemplar, e usará a obra na significação desejada [...]. Mas neste caso ‘abertura’ não significa absolutamente ‘indefinição’ da comunicação, ‘infinitas’ possibilidades da forma, liberdade da fruição. [...] claro que o intérprete pode orientar-se mais para um sentido do que para o outro [...], mas sempre segundo regras de univocidade necessária e preestabelecidas.” (Obra Aberta pag. 43)

É importante também notar que quanto mais se abre a mensagem que deseja transmitir (entenda, quanto mais possibilidades interpretativas a mensagem possui), ou seja, quanto menos redundância na mensagem, quanto menos clara a mensagem está, quanto mais o autor chamar o público para participar da peça, maior o número de informação que a mensagem contém (e como consequência, maior a quantidade de interpretações que se pode extrair).

Para completar sobre INFORMAÇÃO, trago mais duas passagens do livro tomado como referência:

“Para teoria da informação conta o número de alternativas necessárias para definir o evento sem ambiguidades. [...] A informação não é tanto o que é dito, mas o que pode ser dito. A informação é a medida de uma possibilidade de escolha na seleção de uma mensagem. [...] A mensagem informa mais porque – na fonte – havia maior incerteza quanto à escolha que viria a ser feita. [...] A informação representa a liberdade de escolha que temos ao construir uma mensagem, e portanto deve ser considerada propriedade estatística da nascente das mensagens.” (pag 101)

“Comunicativamente, tenho informação quando: 1) no seio da desordem original recortei e constituí uma ordem como sistema de probabilidades, isto é, um código; 2) no seio deste sistema, sem voltar aquém (antes dele), introduzo – através da elaboração de uma mensagem ambígua em relação às regras do código – elementos de desordem, que, numa tensão dialética, se contrapõem à ordem de fundo (a mensagem põe em crise o código)”. (pág 121)

Hoje, na publicidade, para você chamar a atenção do público e convidá-lo a participar da peça publicitária, é preciso quebrar algumas regras, o que deixa a campanha publicitária um tanto mais próxima do que é arte, convidando a pessoa a pensar mais sobre o que está se querendo dizer e assim aumentar o tempo de atenção que o público dará à mensagem. Sobre essa quebra de regras, “um dos elementos de peculiaridade do discurso estético é fornecido pela quebra da ordem probabilística da linguagem, ordem apta a veicular o significados normais, justamente para aumentar o número de significados possíveis. (pag 121)

Neste convite que se faz ao público para participar da peça, a transmissão de uma sequência de sinais com uma redundância escassa, com alta dose de improbabilidade, ou seja, uma transmissão muito aberta, reque que, na análise, se considerem as atitudes mentais com que o receptor seleciona a mensagem, introduzindo nela, a título de liberdade de escolha, uma probabilidade que de fato não se encontra na mensagem, mas junto de muitas outras.” (pag 131)

“Torna-se, portanto, necessário considerar a relação interativa que se cria, tanto ao nível da percepção quanto ao nível da inteligência, entre os estímulos e o mundo do receptor: uma relação de transação que representa o verdadeiro processo de formação da percepção ou da compreensão intelectual.” (pag 132)

Quanto a percepção, “representa contudo uma relação na qual minhas memórias, minhas convicções inconscientes, a cultura que assimilei (numa palavra, a experiência adquirida) integram-se ao jogo dos estímulos para conferir-lhes, juntamente com uma forma, o valor que eles revestem para mim, considerando os fins que me proponho (pag 133). As percepções, assim, “não constituem relações absolutas ‘daquilo que está fora’, mas representam predições ou probabilidades baseadas em experiências adquiridas” (pag 134).

Depois desse embasamento teórico da linha que foi adotada, vamos para a campanha do Dia dos Pais do Iguatemi, de fato.

Campanha Dia dos Pais Iguatemi – Pai. Insubstituível.

Campanha Dia dos Pais Iguatemi 2014. Pai Insubstituível

Essa é a peça que está em exposição na faixada do shopping Iguatemi. Como pode ver, SEM O VÍDEO, é uma peça bastante aberta e riquíssima de significados. Em temos de imagem, temos o azul (cor associada ao masculino) no plano de fundo, um garoto usando kimono e enfezado porque a mãe está colocando um capacete remetendo à superproteção, sendo que o capacete nada tem a ver com o esporte praticado. A mãe veste azul, que pode remeter a uma mãe que também faz papel de pai. Como texto, o slogan da campanha “Pai. Insubstituível.” e a assinatura “Dia dos Pais Iguatemi”.

A “regra” (o mais comum) para peças de dia dos pais é fazer uso da imagem de um pai com o filho. Eu poderia citar inúmeros exemplos, mas acho desnecessário. De forma ousada, o Iguatemi optou por “quebrar” essa “norma” e colocar a imagem de uma mãe que tem o espírito protetor. Esse espírito protetor faz com que a mãe não entenda o fato do menino querer lutar, daí que entra a figura do pai para gerar esse equilíbrio.

Enfim, o conceito da peça gira em torno de aspectos culturais, desenvolvidos desde quando o mundo é mundo. Vale lembrar que a propaganda usa muito desses aspectos culturais, a propaganda faz uso de estereótipos (não entenda o termo de forma pejorativa) para gerar identificação do público e trazê-lo para a ação desejada. Não há nada de errado nisso, a menos que se queira “quebrar” esses aspectos culturais. E é exatamente aí que entra o problema...

Ao “abrir” a peça, ao quebrar a “regra”, abre-se ramos interpretativos diversos. A redundância não se caracterizou (na verdade, a redundância apenas minimizaria a questão). Optou-se por ganhar mais informação, ganhar mais atenção e interação do público, mas a consequência disso é que o aumento da informação aumenta consequentemente o número de possibilidades interpretativas. Aí entra o que já discuti na postagem sobre “Grupos Hostis”, ou seja, grupos que desejam quebrar aspectos culturais por diversas razões que já falei um pouco no início deste texto e que não interessa aprofundar no momento.

O interessante é que GRANDE PARTE do público entendeu e aderiu à peça, afinal, fez-se uso de aspectos culturais bem enraizados em nossa sociedade brasileira, mas apareceu um pequeno grupo, que quer quebrar esses aspectos, e obviamente olhou as peças com outros olhos.

Para ter ideia que trata-se de um grupo, recorde da campanha do Dia das Mães do ano passado (2013) que tem exatamente o mesmo conceito, trocando apenas os agentes (inclusive fez-se o uso do mesmo grupo de atores – Grupo Porta dos Fundos). O conceito “Mãe. Insubstituível” não teve tanto alarde, e olhe que a peça pode-se até dizer que foi mais “agressiva” em relação ao homem, considerando que ele é todo atrapalhado para cuidar de um filho. A chave interpretativa utilizada para as duas peças foram diferentes, para duas situações iguais.

Mais interessante ainda é que apresentando essa peça HOJE, já existe uma certa aversão destes “Grupos Hostis”, coisa que no ano passado não ocorreu tanto, o que mostra como essa ideologia de quebrar regras está aumentando a cada dia que passa. A percepção também mudou com o tempo, o que é natural, afinal houve mais “experiência adquirida”, fomentada pelo jornalismo e propaganda ideológica.

As campanhas também continham um VT cada, que não muda muita coisa, exceto o fato de reforçar o estereótipo que a campanha de fato quer passar: No dia dos pais, usou-se a mãe atrapalhada com o fato do filho fazer esporte de luta. No dia das mães, usou-se o pai que se atrapalha com o fato de precisar cuidar do filho pequeno. A quebra da “norma” continuou, embora os conceitos de “mãe que faz papel de pai também” e “pai que faz papel de mãe” também tenham sido reduzidos

Dia dos Pais - Iguatemi Salvador


Dia das Mães Iguatemi Salvador 2013



Finalizando

Não estou criticando a campanha do Dia dos Pais do Iguatemi. Acho a proposta “Pai. Insubstituível” boa e o trabalho condiz com o que boa parte do público acredita: “Que existe um papel de pai e que existe um papel de mãe”. Eu entendi a mensagem que o Shopping quis passar e não vou ficar colocando cabelo em ovo como muito por aí estão: “Campanha Machista”, “Campanha Sexista”, “Campanha Homofóbica”, “Campanha Discriminatória”, “Campanha Isso”, “Campanha Aquilo”. Boa parte das pessoas que conheço também entendeu e não viu nada demais, uma pequena parte ficou “em cima do muro”, “cheio de dedos” por causa da patrulha ideológica e uma menor parte ainda aderiu à luta de classes.

Assim como toda comunicação humana, ela não é perfeita (nem nunca será). Estamos trabalhando com milhões de pessoas que tem suas convicções e sempre vai desagradar alguém. Então, se essa campanha não agradou uma parte das pessoas, isso é normal. O que não é normal é querer submeter todo mundo a essa parte de pessoas que não se agradaram, afinal, a campanha não agrediu ninguém.

Meu objetivo com esse post foi passar um pouco da noção de “abertura” de peças, os riscos que se corre ao ser ousado, quais fatores que interferem (aumentam ou diminuem) nestes riscos e dar uma ferramenta a mais para avaliação de peças de comunicação e peças artísticas e mostrar como o mundo à nossa volta está dificultando bastante o trabalho dos profissionais de comunicação, principalmente de publicidade que usa bastante conceitos culturais, estereótipos e arquétipos.





terça-feira, 29 de julho de 2014

Campanhas Eleitorais na TV: O Show Vai começar


No dia 19 de agosto começarão as campanhas eleitorais em rádio em televisão e, como muitos sabem, vai começar o espetáculo de entregas de conteúdo que o público deseja ter e/ou ouvir.

O Marketing Político é importantíssimo, afinal sem ele dificilmente (praticamente impossível) alguém que realmente queira mudar alguma coisa conseguirá chegar ao poder e promover as mudanças necessárias. Portanto, o problema não é o Marketing Político (ou, se preferir, o Marketing Eleitoral) em si, mas como fazem uso dele.

Desde que o poder foi devolvido aos civis (na verdade até antes disso) as campanhas eleitorais estão ficando cada vez mais cinematográficas e o uso das mídias de massa têm decidido as campanhas, principalmente as presidenciais. O candidato passa a ser um produto que deve ser vendido e para obter os votos (sucesso de vendas) é preciso SEDUZIR, PERSUADIR O ELEITOR.

Em Campanhas Eleitorais, que transforma o candidato em produto, valem as mesmas premissas de Campanhas Publicitárias de empresas. Da mesma forma, no Marketing Político valem as mesmas “normas” do Marketing de empresas. Logo, é preciso tratar as Campanhas Eleitorais como são tratadas as Campanhas Publicitárias, tanto quem elabora tais campanhas, quanto, e principalmente, quem as recebe em seus veículos preferidos.

Vale fazer um acréscimo sobre “propaganda enganosa” que é tão combatida e gera revolta no consumidor. Uma empresa precisa entregar o que o consumidor deseja, precisa satisfazer as necessidades do público, para isso faz pesquisas e molda os produtos de acordo com os desejos e necessidades do público. Para vender esse produto, faz uso de ferramentas do marketing (tendo como uma das principais a PROPAGANDA) e quando a promessa não condiz com a entrega o consumidor se sente lesado e recorre a meios cabíveis.

Nas Campanhas Eleitorais o princípio, “a princípio”, deveria valer. As pesquisas para entregar o que o eleitor deseja ocorrem e é interessante que seja assim, é importante saber o que a população deseja e precisa e moldar o produto (candidato) a tais anseios da população. O problema é que o uso mais comum desta ferramenta no Marketing Político visa apenas ganhar a confiança da população e se manter no poder através de mentiras, sendo que o eleitor muitas vezes não tem como recorrer.

Imagine que uma propaganda diz que o consumidor deseja todas as funções possíveis e imagináveis em um celular. A empresa que produz celular diz que seu produto tem tudo isso e realiza a venda. Após adquirir o produto, o consumidor nota que seu aparelho “apenas fala e manda mensagem” e recorre. A empresa responde que as funções estão ali e através de outra propaganda mostra que estão ali mesmo e isso vale como prova irrefutável de que as funções existem em tal aparelho e diz que o consumidor que não percebe, não sabe usar o aparelho devidamente.

Essa estória que acabei de contar é o que mais acontece com grande parte os políticos do Brasil na atualidade, com o diferencial que a população tem poucos recursos para recorrer.

Para ilustrar um pouco como se dá as Campanhas Eleitorais na TV, sugiro dar uma lida nesse artigo elaborado pelo estudante Lucas Corazzini. Possivelmente trata-se de um trabalho de faculdade e tem uma linguagem bastante simples e de fácil entendimento para pessoas que não são da área. O documento se chama “Análise Semiótica da Propaganda Eleitoral” e pode ser lido ou baixado neste link.

Gostaria de ressaltar duas citações que o autor fez no seu trabalho e que mostram muito bem como são as Campanhas Eleitorais na TV (e em outros meios):

1) "De forma neutra, propaganda é definida como forma propositada e sistemática de persuasão que visa influenciar com fins ideológicos, políticos ou comerciais, as emoções, atitudes, opiniões e ações do públicos-alvo através da transmissão controlada de informação parcial (que pode ou não ser factual) através de canais diretos e de mídia." - Richard Alan Nelson, A Chronology and Glossary of Propaganda in the United States, 1996.

2) “Segundo Umberto Eco, a comunicação eficiente fundamenta-se na proposta de arquétipos de gosto que preenche as mais previsíveis expectativas. Entretanto, para não se tornar repetitiva e exaustiva, a publicidade baseia-se no pressuposto de atrair a atenção do espectador, quanto mais violar as normas comunicacionais conhecidas, realizando apelos através de soluções originais.” - Thomas Hohl, Recursos visuais e 4 idéias de uma campanha eleitoral, 2000.

Este artigo ainda traz um pouco de teoria da Publicidade e Propaganda e vale a pena ler em caráter introdutório.

Hollywood Eleitoral

As campanhas eleitorais, então, tornaram-se palco de vendas. O “Estadão” colocou em seu canal no YouTube uma entrevista com o publicitário Eduardo Fischer que fez uma análise da evolução das campanhas eleitorais na TV desde as primeiras eleições diretas para presidente após o Regime Militar, em 1989. Vale a pena assistir este vídeo com pouco mais de 7 minutos.




Para finalizar, gostaria de deixar bastante claro que não sou contra o Marketing Eleitoral assim como não sou contra o Marketing. Muito pelo contrário, sou completamente a favor do uso de ferramentas de Marketing para vender produtos (candidatos) e deixar tudo cada vez mais claro para o consumidor (eleitor) que deverá receber o que deseja. O problema não está no Marketing, mas sim nos vetos, na não liberdade, na censura, na não disputa, no deixar apenas o mais forte fazer o que bem entende, mentindo para o consumidor e não deixando meios para que ele recorra a outras alternativas.








sábado, 26 de julho de 2014

A Desinformação na Internet (e em outros meios de comunicação)


Estamos vivendo em uma época em que a tecnologia nos ajuda muito a driblar os bloqueios e manipulações de informações, mas para que a tecnologia seja eficiente é preciso que as pessoas tenham em mente que a internet não é mais um meio idôneo, que A INTERNET JÁ SE TRANSFORMOU EM MEIO DE MASSA. Não massa no sentido que conhecemos (direção única), mas uma relação de massa muito mais perigosa e eficiente, uma mídia de massa interativa (direção dupla, muito mais complexa).

Infelizmente esse fato ainda causa muita resistência, principalmente dos setores ligados ao Marketing na Internet que ainda estão entusiasmado com as formas de controle e mensuração, com as informações cada vez mais precisas que se consegue coletar do público e fazer uma entrega cada vez mais direcionada.

A tecnologia expandiu muito, alcança cada vez níveis mais elevados, mas com ela as pesquisas e as formas de lidar com a tecnologia vão sendo apuradas também.

Bom, por que fiz essa breve introdução? Porque hoje é possível notar um nível de manipulação e desinformação na internet altíssimo. A facilidade e, principalmente, a quantidade de informação disponível para as pessoas gera uma saturação nos indivíduos que passam a filtrar os resultados e a ter menos atenção (e dedicação na apuração) nas notícias e informações veiculadas.

As Mídias Sociais (que incluem blogs) fazem as pessoas se sentirem mais próximas, mais íntimas, e o nível de confiança se eleva, muitas vezes (diria até que a maioria das vezes) maior do que o nível de confiança em relação a quem está bem próximo de você fisicamente.

Hoje na internet é possível encontrar de tudo, todo tipo de imagem, todo tipo de vídeo, todo tipo de texto (em diversas línguas) o que torna IMPOSSÍVEL a pessoa estar a par de tudo o que está acontecendo, o que gera uma “necessidade” de confiar em pessoas que talvez estejam mais a par de certos temas. Antigamente, também era impossível você ter acesso a um elevado número de informações, mas você tinha menos conhecimento em relação a existência de diversos temas. Hoje o que está acontecendo é que as pessoas estão tendo conhecimento geral sobre quase tudo e conhecimento aprofundado sobre quase nada.

Se você ver circulando informações sobre um determinado assunto que não tem conhecimento tão aprofundado, normalmente você não busca se aprofundar e checar tais informações, recorre a alguém de sua confiança e que possa ter um conhecimento mais amplo sobre o assunto.

No geral, isso não é mau quando a gente precisa de informações gerais e de pouco impacto social. O problema é que informações de alto impacto social estão sendo colocadas no mesmo pacote de informações acadêmicas/profissionais/científicas. O que chamo de “informações de alto impacto social” são informações que gerem alguma resposta em níveis sociais como, por exemplo, aquela pesquisazinha infame do IPEA que colocou o povo brasileiro como “estuprador”. Podemos chamar também de “informações de alto impacto social”, informações ligadas ao “politicamente correto”, à processos eleitorais, à relações exteriores, manifestações, etc...

E porque me preocupa o fato de colocarem essas informações de alto impacto no mesmo pacote das demais informações? Pelo fato de serem informações que despertam ações através de sentimentos, de emoções. Quando a gente ver uma atitude racista, como ocorreu com o Daniel Alves e que gerou a campanha “#SomosTodosMacacos”, nosso sangue ferve e queremos passar adiante para o combate a essa atrocidade. Enfim, somos reativos através das emoções.

E onde é que entra a desinformação nessa história toda?

Desinformação na Internet (e em outros meios de comunicação)

Primeiramente é importante deixar claro que desinformação é algo DIFICÍLIMO de fazer e que tem diferença para o informações falsas e mentirosas (muitas vezes o termo “desinformação” é utilizado para se referir a tais informações, inclusive o título desse post diz respeito mais a isso do que a Desinformação propriamente dita), difere também das notícias manipuladas e da ocultação de informações, embora a desinformação propriamente dita faça uso de todos esses tipos de informações citados. Diria que 90% do que a gente ver por aí e chama de desinformação é na verdade informações falsas ou manipuladas que viralizaram.

Então, deixando esses pontos claros, daqui para frente, usarei o termo “desinformação” para designar tudo isso que falei, ou seja, tanto a desinformação propriamente dita quanto os demais usos.

“Desinformação é você manipular uma informação, modificar a informação (ou até mesmo escondê-la) para criar um efeito no público, quando aplicado à massa, usa-se o termo desinformação, quando aplicado pontualmente é chamado de intoxicação.” (Fonte: vídeo no final do post).

Associando o que foi dito na citação acima aos fatos que hoje estamos cada vez mais saturados de informações que chegam até nós, ao fato de termos cada vez menos tempo para nos aprofundarmos em determinados assuntos e ao fato de depositarmos cada vez mais confiança em nossos “amigos virtuais”, explica-se o porquê de hoje em dia estar tão fácil praticar a desinformação na internet, inclusive “trollando” veículos oficiais da grande mídia, como fez recentemente o blog Não Salvo criando o viral de que a Coréia do Norte ter passado para o seu povo que foi campeã da Copa do Mundo em cima do Brasil.

Este fato do Não Salvo foi uma brincadeira e as consequências não foram muito grande, mas e uma manipulação de informação como fizeram a Rachel Sheherazade quando ela falou que era compreensível o povo se revoltar contra um marginal? Esse caso da Rachel ilustra bem como o “coquetel” manipulação de notícia com uso de fortes emoções pode gerar uma revolta generalizada.

E o que dizer do que está rodando a internet em relação ao conflito “Israel x Hamas”? Este último sim tem muita DESINFORMAÇÃO PROPRIAMENTE DITA com direito a uso de “manipulação de informações”, “informações mentirosas”, “ocultação de informações” e uso da emoção alheia. E o caso da derrubada do avião na Ucrânia? Esse também tentaram...

Gosto muito de uma comparação que o vídeo abaixo faz, não transcrito exatamente como está no vídeo:

“Para demolir um prédio, você não precisa explodir o prédio inteiro, basta você explodir algumas colunas que o sustentam e a gravidade faz o resto. Na desinformação ocorre algo parecido, você manipula a informação, cria um fato ou esconde alguma coisa (ou cria uma história com pontos de verdades e acrescenta inverdades - os pontos de verdade acabam legitimando as inverdades), coloca em pontos chaves (veículos, blogs, REDES SOCIAIS,) e deixa que as pessoas disseminem a informação.”

Isso lembra muito o uso de blogueiros (que acabam sendo referência para muitos), uso de colunistas na grande mídia, uso de jornalistas militantes, correto? Como driblar isso? Infelizmente não há outro método se não o de pesquisar, ponderar as informações, procurar contrapontos e quando não encontrar você mesmo fazê-los, não confiar cegamente em nenhum veículo, e ter em mente que a pessoa que você mais confia pode ter sido intoxicada e estar repassando informações sem querer, na melhor das intenções. Inclusive, não é raro você mesmo ser intoxicado e ser pego por essa rede que é gigantesca (eu mesmo já passei a vergonha de ser pego inúmeras vezes e tenho certeza que você também). Poderia resumir tudo isso em “busca sincera pela verdade e reconhecer quando errar, absorvendo a vergonha de ter falado besteira se retratando”.

Vale ressaltar que em campanhas eleitorais e propagandas políticas o uso da desinformação é bastante comum (infelizmente). Vale ressaltar também que SEMPRE a retratação tem menos impacto do que a viralização da informação errada (no caso do IPEA, a retratação não teve tanto impacto quanto a primeira notícia errada). E nem vou entrar no detalhe que muitas vezes isso é feito para ser dessa forma: você declara um escândalo falso, a informação se espalha de forma muito rápida e depois se retrata com a certeza que o impacto da retratação será inferior.

Para mostrar o quanto o impacto da desinformação, fazendo uso do emocional das pessoas, é difícil de reverter, que tal relembrarmos o caso Marco Feliciano e a chamada “Cura Gay”? Uma pessoa foi demonizada e um tema foi demonizado. Se você analisar friamente, tentando deixar a indignação causada por causa do preconceito atribuído ao tema, verás que muita coisa é inverdade, a começar pelo fato de o projeto que chamaram de “Cura Gay” não ser de autoria do Marco Feliciano e o projeto não falar de "Cura Gay", mas naquele momento tinha uma militância organizada e empenhada em retirá-lo da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

E o massacre que está acontecendo na Venezuela? Poucos tomaram conhecimento devido à OCULTAÇÃO. Tanto que até hoje muita gente não sabe que tem morrido gente na Venezuela por causa de manifestações contra Maduro, tem gente na miséria (passando fome) por causa de medidas tomadas pelo presidente e tem empresários quebrando devido a sanções que o governo de lá tem aplicado por acreditarem que há uma tentativa de golpe.

E o Foro de São Paulo, que é um evento que acontece periodicamente na América Latina e que trata de temas para manter os partidos de esquerda no poder (e os países que ainda não chegaram, como chegar), isso custe o que custar, mesmo que através de fraude? O Foro de São Paulo ficou escondido (e sendo negado pela esquerda) por mais de uma década, vindo realmente à tona na grande mídia no ano passado.

O uso de imagens de outros eventos para ilustrar eventos atuais e causar indignação também é muito comum, afinal, a internet tem um VASTO material e é impossível ter acesso a tudo. Só é você buscar uma imagem bastante antiga e de outro país para ilustrar. Isso aconteceu, inclusive, com o caso Venezuela em que várias imagens de outros anos foram utilizadas para provar o que está acontecendo (isso mostra que a desinformação ocorre de ambos os lados). Inclusive, isso é uma forma de deslegitimar outras fontes de informação... Solta-se um viral e depois desmascara ele para “provar” que as informações estão sendo manipuladas.

Poderia citar aqui INÚMEROS exemplos... É um terreno bastante sombrio e todos estamos vulneráveis, mas o mais importante é termos uma sincera busca pela verdade e não trabalhar cegamente em favor de uma causa/ideologia.

Certamente voltarei a esse tema mais adiante. Para finalizar deixo essa EXCELENTE palestra ministrada por Lourival Filho, diretor cultural do "Instituto Liberal do Nordeste" e diretor presidente do "Expresso Liberdade" cujo título foi “Desafios da Vida Política e Intelectual Brasileira” e que fala muito da desinformação (uma das causas de a vida política e intelectual passar por tantos desafios). Recomendo FORTEMENTE assistir e, como boa parte dos visitantes desse blog são da área de Comunicação e Marketing, tentar fazer relações à sua área específica.







terça-feira, 22 de julho de 2014

Teorias da Comunicação e a Escola de Frankfurt

Teorias da Comunicação e a Escola de Frankfurt

A Escola de Frankfurt gerou muitos frutos no campo das ideologias (não necessariamente frutos positivos) e das Teorias da Comunicação. Para entendimento do que se trata toda a teoria (filosofia) gerada a partir da Escola de Frankfurt, é importante ter em mente alguns princípios. O principal deles é que a Escola de Frankfurt tem um direcionamento anticapitalista e anti-civilização ocidental, tentando entender como esses fatores funcionam e influenciam o mundo para então "desconstruí-los".

No início do século XX o socialismo era visto por muitos (aliás, ainda hoje é) como a solução para diversos problemas sociais que acreditavam ser gerados pelo capitalismo, mas as coisas não ocorreram como previam alguns “pensadores” da época: Os trabalhadores do Ocidente não se rebelaram com seus patrões, talvez porque gostavam do estilo de vida, para fazer a revolução, que naquela época acreditava-se que tivesse dado certo na União Soviética. Ficou então a pergunta sobre o porquê das tentativas de revolução no ocidente terem dado errado.

A resposta foi encontrada nos pilares que diferenciavam a civilização ocidental da civilização oriental: O esquema de pensamento, a forma de pensar. Esse esquema de pensamento da civilização ocidental tem como pilares o DIREITO ROMANO, FILOSOFIA GREGA e a MORAL JUDAICO-CRISTÃ. Por isso que nota-se uma crítica sistemática em relação a esses três pilares, principalmente aos dois últimos citados.

A forma de “atacar” esses fatores, como pode-se ver facilmente, é um processo de desconstrução cultural, um esvaziamento da cultura, talvez para colocar outra no lugar. Entende-se, então, o porquê de se falar tanto de “desconstrução” em tudo hoje em dia. Obviamente a base (a fundação) do pensamento desconstrucionista não começou na Escola de Frankfurt, mas com outros pensadores, principalmente do período Iluminista.

Para se aprofundar um pouco mais sobre esse processo de desconstrução da civilização ocidental, recomendo assuntos associados ao que chamam de “Marxismo Cultural” e muitos textos do Antônio Gramsci, este último para entender a forma como está sendo implantada essa “Revolução Cultural.

Recomendo, como caráter introdutório, para os interessados em entender esses pontos:
- Marxismo Cultural e Revolução Cultural: lista de 7 vídeos
- Origem do marxismo cultural: lista com 9 vídeos curtos
- Marx e Gramsci: Aula sobre Marx e Gramsci ministrada pelo professor Marcus Boeira
- Neocomunismo no Brasil - Como está sendo implantado: Slides explicando um pouco da “estratégia” de Antônio Gramsci
- A Escola de Frankfurt e o Marxismo Cultural: Vídeo sobre o quê pretende a Escola de Frankfurt, como estão “desconstruindo” a civilização ocidental (principalmente os EUA, foco deste vídeo, que é a nação mais forte do Ocidente – por isso que os socialistas adoram culpar os EUA de tudo), as bases do pensamento, Antônio Gramsci e Saul Alinsky.

Teorias da Comunicação e a Escola de Frankfurt

As indicações listadas anteriormente vai até um pouco além da Escola de Frankfurt e extrapola o tema “Teorias da Comunicação”, mas é importante ter em mente que muita coisa da Escola de Frankfurt, principalmente no que tange à Teorias da Comunicação e temas relacionados à “Sociedade de Massas”, foram (e ainda são) utilizadas.

Sem mais delongas, abaixo seguem três vídeos que totalizam pouco mais de 2h, que é de fato a razão deste post. Esses vídeos, segundo comentários nos Youtube, foram feitos a partir de aulas do professor Renato Márcio da UNIARA.

Pretendo desenvolver mais detalhadamente cada ponto mais a frente, nas tags relacionadas à Comunicação principalmente “Teorias da Comunicação”, “Comunicação de Massa”, “Cultura de Massa” e “Mídia de Massa”.












segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eleição é Guerra

Eleição é Guerra

Estou usando o título “Eleição é Guerra” de forma “emprestada” de um livro do Carlos Augusto Manhanelli escrito no início da década de 90 em que ele trata de forma bem didática e simples o assunto Marketing Político. O autor de “Eleição é Guerra”, em 1992, logo no primeiro capítulo, recorreu ao livro “Da Guerra” de Carlos Von Clausewitz e fez associações diretas, trocando apenas alguns termos. Pretendo aqui fazer algumas associações que não necessariamente estão de acordo com o ponto de vista do Manhanelli.

Basta ser um pouco atento para entender que de fato as campanhas eleitorais se transformam numa completa guerra, principalmente no campo das informações. A própria Dilma Rousseff, em discurso no ano de 2013, afirmou que pode “fazer o diabo” em eleições. E de fato é assim... Planta-se notícias, faz-se uso de artilharia (propaganda) e da infantaria (militância) para derrotar o adversário, tenta prever as atitudes do adversário, protege-se em trincheiras, elabora ataques estratégicos de acordo com o seu posicionamento, faz-se alianças, usa-se o poder judiciário para ocupar tempo do adversário, faz uso da espionagem e infiltração para coletar informações, usa-se da intimidação, além de fazer uso de ferramentas (muitas vezes não muito limpas como atitudes similares ao terror) para encurralar o oponente. O lema “sempre alerta” também é extremamente necessário, visto que não se pode derrapar e os ataques podem vir de onde menos se espera. É preciso maior atenção em suas vulnerabilidades (pontos fracos) e um ataque equivocado pode custar muito caro, dando inclusive mais força ao adversário.

O trabalho estratégico (baseado em planejamento e as informações que as pesquisas passam) para a elaboração tática é de fundamental importância, por isso é de extrema necessidade ter um “setor de inteligência” para acompanhar (espionar e se infiltrar?) todo o andamento da guerra eleitoral.

Como pode ser visto, campanhas eleitorais e guerra tem diversas associações diretas (diria até mais do que com o próprio Marketing). Como pretendo dissecar algumas ações daqui até o final das campanhas eleitorais, decidi fazer essa postagem mais geral. Muito do que falarei daqui pra frente vai estar diretamente ligado a este post.

Eleições vs Guerra

Para finalizar o post, retomo as alguns pontos que o Carlos Augusto Manhanelli apresentou no seu livro “Eleição é Guerra” como ditos no livro “Da Guerra” do autor Carlos Von Clausewitz. Apresento, junto com associações e pontos de vista meus e exemplos dos dias atuais.

01) “Cada um tenta, por meio de sua força física, submeter o outro a sua vontade; o seu objetivo é abater o adversário a fim de torna-lo incapaz de toda e qualquer resistência.”

Esta afirmação do Clausewitz pode ser associada diretamente a duas vertentes: A militância (talvez até o eleitor) e as alianças partidárias. Através da intimidação, usando o medo, tenta-se persuadir os outros mostrando que é mais forte e que é de extrema importância estar do seu lado, dando a entender que ele é mais forte e que se ganhar os que estiverem do lado do então oponente não vai ter as mesmas vantagens. Isso passeia também pelo campo dos ataques morais, colocando rótulos esdrúxulos nos militantes e eleitores do oponente, desqualificando as ações e argumentações previamente, além de intimidar os partidos de outras alianças com ataques sistemáticos.

Quer exemplos? As vaias a Dilma Rousseff nos estádios foram ridicularizadas apresentando como motivo o fato de serem de uma “elite branca” e, em outros locais, associavam essa “elite branca” à eleitores e militantes do PSDB. Jornalistas que por ventura possam apoiar o PSDB, são esculachados e acusados de estarem recebendo dinheiro para isso, além de receberem ataques no campo moral. Políticos de outros partidos que não estão diretamente ligados à partidos aliados são tratados como inimigos mortais e têm suas vidas pessoais vasculhadas. Partidos que não apoiarem sua candidatura sofrem retaliações enquanto os aliados recebem afagos. Esses são só alguns exemplos.

02) “[...] julgar que existe uma maneira artificial de desarmar e derrotar o adversário sem verter demasiado sangue [...] é um erro que é preciso eliminar. Num assunto tão perigoso quanto a guerra, os erros devido à bondade da alma humana são precisamente a pior das coisas.”

Mais claro impossível! Só é você reparar o nível dos ataques diretos que uns candidatos fazem com os outros, tentando detonar totalmente a reputação dos adversários. O erro de pensar que “se eu não me rebaixar ao nível dele” fez o PSDB perder as três últimas eleições pois enquanto o PT atacava os tucanos de forma sistemática e suja, o PSDB ficava com um “ar de superior” pensando que “não se rebaixar ao nível deles” iria conseguir alguma coisa. O mesmo vale para a militância.

03) “Para que o adversário se submeta à nossa vontade, é preciso coloca-lo numa situação mais desfavorável o que o sacrifício que lhe exigimos. Todavia, a desvantagem da sua situação não deve naturalmente ser transitória ou, pelo menos, aparentar sê-lo; caso contrário, o adversário esperaria um momento mais favorável e não cederia [...], é necessário desarmá-lo realmente ou coloca-lo em condições tais que ele se sinta ameaçado por esta probabilidade.”

Isso vale tanto para o candidato adversário quanto para militância (ou eleitores) adversários. Aqui entra o “Assassinato de Reputações” (título do livro do Romeu Tuma Júnior) tanto dos adversários políticos, quanto dos militantes e eleitores, entrando nesse saco também outros que estejam contra o candidato, mesmo que não necessariamente esteja apoiando o oponente.

Podemos tomar como exemplo o que tentaram fazer com o Marco Feliciano, o que tentam sistematicamente fazer com o Jair Bolsonaro, o que estão fazendo com a Rachel Sheherazade (que não declara apoio a ninguém, mas critica o atual governo), o que muitos tentaram fazer com a Denise Abreu quando era pré-candidata... Em termos partidários, aqui entra as sanções e bloqueios de verbas para partidos dos oponentes que estão em exercício do governo (ou prefeitura), destituição de cargos, demissão de estatais (como o caso da demissão do vice presidente da Caixa Econômica). Como intimidação do eleitor, trago aqui uma situação ABSURDA que ocorreu nas eleições para a prefeitura de Salvador em 2012. Militantes do PT faziam uma algazarra (inclusive com xingamentos diretos) diante de eleitores que, pelo menos aparentemente, iam votar no candidato do DEM. Digo isso pois EU MESMO (ninguém me contou, eu senti isso na pele) sofri isso quando saí para votar. O mesmo aconteceu com diversos conhecidos meus, inclusive parentes bem próximos.

04) “Cada uma das partes esforçar-se-á para prever a ação da outra, tirando suas conclusões do caráter, das instituições, da situação e das condições em que se encontra, e adaptará sua própria ação a essas condições...”

Aqui o campo é bem estratégico, então é difícil trazer exemplos concretos e irrefutáveis, visto que ninguém abre suas estratégias, correto? Mas é fato que deve-se estar atento aos movimentos do adversário, tentar descobrir as fragilidades deles (e cobrir as suas pois ele pode descobrir e te atacar nesse ponto), prever reações (e aí entra a decisão se deve ou não responder às provocações e, caso responda, de qual forma, pois a sua resposta pode estar prevista pelo adversário), através de pesquisas tentar prever se o oponente vai partir pro ataque ou vai ficar recuado, decidi se mantem a defensiva ou parte para o ataque, etc etc etc...

Como exemplo, posso trazer uma suposição. O PT sempre reagiu aos ataques sofridos, mas começou a ser mais agressivo quando os ataques começaram refletir nas pesquisas de intenção de voto. Quando a Dilma começou a cair (não necessariamente em números), o PT começou a ser mais agressivo nas respostas e ataques (o que me leva a crer que as pesquisas quase “estáticas” tem erro, pois a resposta do PT não condiz com a “estabilidade” da Dilma nas intenções de voto).

Enfim, esse texto servirá como base para diversos outros que irei fazer daqui até pelo menos as eleições do segundo turno.





sábado, 21 de junho de 2014

Sobre a Mensagem Subliminar e Semiótica da Logo da Copa do Mundo 2014


Quando o assunto é publicidade e propaganda todo mundo é “entendido” no assunto, todo mundo adora dar pitaco, é igualzinho a ser técnico de futebol em que todo mundo sabe exatamente o que fazer para o time (ou seleção) deslanchar. O engraçado é que as “soluções" são na maioria das vezes contraditórias e todo mundo acha que está certo.

Não. Não estou dizendo que não se deve conversar a respeito e expor o que se acha, afinal, é expondo o errado que você tem a oportunidade de consertar o erro, não é? O problema é insistir na bobagem ou simplesmente dizer “é minha opinião e pronto” e não se ater aos fundamentos. Como é que se pode ter uma opinião sem ter conhecimento sobre o assunto? Logicamente não se trata de opinião, mas sim de palpite.

Em caso recente, os palpites estão na esfera da “Semiótica” e “Mensagem Subliminar”. Pior, estão tratando as duas coisas como sinônimos, o que já mostra um desconhecimento sobre o que é cada uma. Como é um assunto que está “abalando os corações” de parte do público que almejo, resolvi prestar uns esclarecimentos.

O assunto é a “Logo da Copa do Mundo 2014”.

Semiótica e Mensagem Subliminar

Não vou aqui definir “Semiótica” e “Mensagem Subliminar” pois foge (e muito) o objetivo desse post, vou apenas fazer algumas considerações (das muitas que abrangeriam os temas).

1) Semiótica é uma ferramenta interessante para sabermos como algo PODE ser interpretado, recebido, processado, pela outra ponta da comunicação.
Quando fazemos uma análise semiótica, nos pautamos numa linha de raciocínio (ou até misturamos algumas linhas, algumas vezes) para prever possíveis influências ou significados, só que não podemos esquecer que esta análise é de UM ponto de vista. Não podemos de forma alguma ignorar que o interpretante pode estar contextualizado de outra forma. Quando lançamos uma comunicação, abrimos um leque de possibilidades interpretativas que é influenciada por diversas variáveis como “contexto”, “cultura”, “reforço de outras comunicações”, “sentimentos”, “reconhecimento”, “empatia”, entre muitas e muitas outras. Ou seja, é praticamente impossível ter controle (ter certeza) sobre como as pessoas vão interpretar.

2) A Mensagem Subliminar é uma informação que se passa a nível do subconsciente.
Mensagem Subliminar é um assunto bastante polêmico pois tudo pode ser e não ser, pode-se também passar mensagens subliminares “sem querer” e muitas vezes passando mensagens que não desejamos que sejam transmitidas. O que não falta é vídeo no Youtube falando sobre o assunto (principalmente relacionado a desenhos animados de Walt Disney e satanismo), maioria deles “paranoia pura”.

03) Mensagens no Subconsciente precisam ser “gravadas” e depois “ativadas”.
Em alguns casos dos desenhos de Walt Disney, falam muito de sexo e do uso de “pênis” (ou corpos cilíndricos que remetam ao órgão sexual masculino). No subconsciente falos (pênis eretos) passam a sensação de força, poder, algo imponente e mexem com uma certa “programação nata” do ser humano. Atividades sexuais a nível do subconsciente podem ser gravadas nesta fase e ativadas posteriormente pois a pessoa atingida vai ter a sensação de que “aquilo lhe é familiar”.

Um caso de mensagem subliminar bem difundido aconteceu na exposição de um filme em que entre um frame e outro - que seria imperceptível a nossa consciência, mas é processado pelo cérebro - colocaram uma imagem de um homem completamente nu frontalmente. Isso pode gerar diversas mensagens, desde uma revolta (ultimamente estão fazendo diversos protestos com todo mundo nu, correto?) até despertar desejos sexuais ou até mesmo aversão total a alguma cena. Ou seja, desperta EMOÇÕES, mas emoções que já estão gravadas.

Outro caso bastante conhecido (mas que foi desmentido, embora permaneça a dúvida se realmente aconteceu) foi inserir uma ORDEM entre um frame e outro em um filme. A ordem seria “Beba Marca X!”. Isso pode gerar vontade de consumir o produto de tal marca e/ou gravar essa ordem no subconsciente. Se essa vontade ativada não puder ser sanada, de nada adianta (por exemplo, ter na lanchonete o produto). Se essa “gravação” não for ativada, também de nada servirá (por exemplo, ter uma publicidade a nível de consciência para gerar a ação).

Feitas essas considerações, só para situar os leitores mais leigos, vamos agora à Logo da Copa de Mundo 2014 de fato. Neste caso, vou tentar me ater ao que está sendo dito por aí nos últimos dias.

Composição da Logo da Copa do Mundo 2014

Antes, vejam esse comercial de apresentação da logo da Copa do Mundo 2014 (mais especificamente a partir dos 30s):


A marca da Copa do Mundo do Brasil tem algumas referências básicas e, sim, mensagens que querem ser transmitidas de forma explícita:

- Taça da Copa do Mundo
- Mãos agarrando e envolvendo a taça da Copa (pode significar vitória)
- Cores que representam o Brasil (verde e amarelo).

Quando partimos para o campo dos “implícitos”, para o campo dos significados, a viagem pode ser muito longa e “viajada”. Como disse anteriormente, o campo de percepção que se abre é praticamente infinito (falarei mais disso daqui a pouco).

Falando um pouco de ASPECTOS TÉCNICOS, gostaria de destacar duas coisas:

1) O degrade do preto para o verde e do laranja para o amarelo:
Isso dá volume ao desenho é como se fosse um sombreamento

2) O 2014 em vermelho: 
Muito se fala sobre esse 2014 em vermelho, que nada tem a ver com as cores do Brasil. Se levarmos em consideração somente as cores do Brasil, a crítica é correta, mas não devemos esquecer que nem tudo numa marca PRECISA ter significado (embora isso seja desejável). O 2014 em vermelho, tecnicamente falando, tem algumas funções:

- Ponto de fixação (atração) do olhar na marca. O vermelho por ser uma cor que atrai o olhar, força seu olho para o ponto vermelho, onde você consegue ter uma visão mais ampla da marca em questão (numa sala, coloque elementos vermelhos e veja como aquele ponto atrairá seu olho o tempo inteiro).
- Equilíbrio cromático. O vermelho é uma cor complementar ao verde e não tão chocante com o amarelo (ainda mais com o degrade puxando pro laranja). Isso vai ter passar uma sensação de equilíbrio, mesmo seu olho sendo PUXADO para aquele ponto. Vale ressaltar que o vermelho é uma cor que, no geral, causa uma certa angústia, desconforto (tente ficar muito tempo em um ambiente com muito vermelho, ou então pinte uma parede inteira de vermelho e veja se você consegue ficar muito tempo no ambiente).
- Deslocar o 2014 do contexto da logo. Mesmo em equilíbrio, é possível perceber que o 2014 não faz parte da taça, não entra no contexto das mãos abraçando a tal taça.

Aí podem perguntar o porquê de não terem colocado o 2014 em azul. Veja bem:


- Você incorpora o azul à taça (já que ela está em verde e amarelo, cores do Brasil, e o azul também pode fazer parte dessa representação).
- Você o ponto de fixação do olhar. Seu olhar vai ficar “perdido”.
- Ok, não vai ficar “desarmonizado”, pelo contrário, no contexto de “Brasil” poderia até ser mais harmônico, mas se perde o “ponto interessante” e deixa a marca bastante “fria”, não passando a empolgação que se pretende (e representa) uma Copa do Mundo.

Significados da Logo da Copa 2014

O campo dos significados é bastante amplo. O mundo “clama” por sentido (significados) e eles são convenções. Para alguns o vermelho pode significar de forma mais forte o comunismo, para outros o PT, pode significar ainda mais fortemente a Coca-Cola ou a Claro no campo das empresas, já no campo do esporte pode significar a Ferrari na F1. O significado vai depender de como você está inserido, em qual contexto está analisando. Se associarmos formas com cores, a situação ainda fica clara: Estrela Vermelha, PT. Bandeira vermelha com foice e martelo, comunismo. Carro vermelho, Ferrari. Círculo vermelho com o nome branco, Claro. Vale ressaltar que todos esses significados foram trabalhados durante ANOS (décadas ou séculos) e nenhum deles foi espontâneo.

Não é atoa que muitas foram as formas de interpretar a logo da Copa do Mundo 2014. Se você colocar no Google (ou até mesmo no Youtube) você poderá se deliciar por horas (talvez dias) com interpretações, formas diferentes como as pessoas perceberam a marca, significados distintos (e muitos contraditórios) que se deu a logo da Copa do Mundo do Brasil.

Tiveram pessoas entenderam a taça como uma mão no rosto tendo vergonha. Houve quem interpretou as três mãos (por que três e não duas?) como união das “raças” (branco, negro e índio). Há ainda a interpretação dos povos que compõem basicamente o Brasil (europeus, africanos e indígenas). Tem ainda quem partiu para o campo de ver “L 2014” o que representaria Lula 2014. A taça pode também representar uma árvore e a Amazônia (ou Mata Atlântica), visto que ela está em verde. Enfim, não dá para bater o martelo no campo da percepção dos significados, no máximo podemos bater o martelo no que quiseram transmitir (e acreditar que estão falando a verdade) e isso pode ser visto no vídeo acima. Ah! E olhe que o vídeo ainda pode ser motivo de discussão quanto o que quiseram passar.

Vejam abaixo alguns links:

- O logo da Copa do Mundo de 2014: Notícia sobre a logo.
- Os erros e acertos do Logotipo da Copa do Mundo Brasil 2014: Crítica sobre a logo.
- Significado do Logo da Copa de 2014: Post interessante em que o autor faz uma “viagem viajada” sobre significados.
- Descoberto o real significado do logo da Copa do Brasil: Postagem com várias “zoeiras” em relação a logo da Copa do Mundo 2014.
- Logo Copa 2014: design e negócios: Análise interessante sobre a composição
- O logo vermelho da Copa: Postagem do Rodrigo Constantino que trouxe à tona toda essa discussão
- E se o logo da Copa fosse nas cores de nossa bandeira?: Mais um post do Constantino, mostrando a logo com o 2014 em azul

Considerações Finais

Não podemos tomar como verdade uma análise que a gente faz de algum elemento de comunicação, no máximo a gente pode tomar a nossa interpretação como exemplo e ver se faz sentido e se coincide com o que o autor desejou transmitir. E olhe que muitas vezes o autor quer transmitir uma coisa e o interpretante ver algo completamente diferente, muitas vezes até divergente ou o oposto do que se deseja.

Para dar significado a algo é preciso toda uma atmosfera que contextualize, reforce e/ou insira significados. Por exemplo, você acha que a Apple, com sua famosa maçã mordida, teria um significado tão forte diante de seus consumidores (que chegam a ser defensores ferrenhos) se não tivessem diversas outras ações publicitárias por trás? Claro que a composição da Maçã Mordida remete e passa certas sensações no público e tem um significado mais difundido (mais não o único) o que ajuda muito, mas é preciso um aparato e, claro, algo que ative essas sensações para que elas tenham utilidade para a marca. Outro exemplo é inserir marcas em contextos de novelas, programas de televisão, eventos, torneios, Copa do Mundo, Olimpíadas, etc para a marca "pegar carona"...

Quando a gente faz uma interpretação firme de algo, inevitavelmente vamos estar vulneráveis a fortes críticas, piadas e chacotas (tenho certeza que esse post vai fazer muita gente torcer o nariz e achar que falei um monte de bobagem, e olhe que não fiz nenhuma interpretação definitiva).

Quanto ao “dilema de Rodrigo Constantino”, é possível que o 2014 em vermelho represente o PT e a mão abaixo do 2014 formando um “L” represente “Lula 2014”? Sim! Claro que é! Tanto que ele teve essa sensação. Mas será que essa foi uma sensação de todos? E, caso seja algo para o subconsciente, como vão tirar vantagem disso? O PT pode sim fazer uso disso para remeter a ele, ainda mais que o vermelho vai estar associado a um evento que engaja e causa boas sensações na população, o que pode transferir essas sensações para a logo da Copa como um todo e o vermelho ser um “elo a ativar”, mas a oposição TAMBÉM pode tirar proveito disso, se for o caso.

Uma análise de significados pode (e deve) ser usada para direcionarmos o interpretante para o que desejamos. Prevendo alguma interpretação indesejada, a gente pode tentar blindar a comunicação, ser redundante em alguns aspectos, deixar mais claro outros, fazer comunicação complementar, prestar esclarecimentos, fazer uso de mídia de massa para conduzir o público a interpretação que se deseja... Enfim, prevendo as interpretações possíveis teremos cada vez menos chances de errar, ou pelo menos reduzir a quantidade de interpretações e de pessoas que interpretam da forma que não desejamos. Como exemplo, tem um post sobre um outdoor que o Marcel Moraes (vereador de Salvador-BA) fez que foi interpretado por muitos como racista (interpretação que certamente é indesejada). Neste caso, ele (a equipe dele, na verdade) fazendo uma análise mais minuciosa, voltada para o público desejado, poderia prever essa reação e tomar medidas para tentar inibir essa interpretação ou até mesmo mandar refazer as peças da campanha.